A representatividade social da música

Voltando à questão da música enquanto arte, entretenimento ou ambas as coisas, quero abordar um aspecto importante a se levar em conta nessa equação: como a ascensão de um estilo influencia na percepção social de todos os outros que vieram antes dele.

chuck-berry-danca-do-patoOu seja, um gênero nunca é visto por si só, mas sim pela sua representatividade cultural e histórica. Usando o exemplo do rock, não é difícil perceber que gostar desse tipo de música em meados dos anos 50 (época em que surgiram Elvis Presley, Chuck Berry e tantos outros) tinha um significado muito diferente de hoje em dia.

Um dos motivos foi que, ao longo do tempo, o rock foi perdendo aquela característica que mais lhe diferenciava: a de ser uma música jovem de caráter subversivo. Além do mais, naqueles primórdios o seu alcance era surpreendente bem mais abrangente do que hoje em dia, não se restringindo a ser “música de branco de classe média”.

E isso por causa de um detalhe muito importante (pelo menos pra essa nossa discussão sobre arte e entretenimento): o rock era, nos anos 50, o “ritmo do momento”, ou seja, o tipo de música mais “quente” que podia haver. O que, convenhamos, já deixou de ser verdade há um bom tempo.

O que me leva a uma entrevista já um tanto antiga (de uns 15 anos atrás, talvez mais) em que um dos integrantes do Daft Punk (duo de house francês) dizia algo mais ou menos nesses termos: o rock costumava ser a música mais excitante de todas, mas agora esse papel cabe à música eletrônica.

Talvez isso seja difícil de aceitar pros que não curtem música eletrônica, mas acho que pra todos os outros essa é uma constatação até bem óbvia. De qualquer forma, e até pra poder usar um exemplo mais próximo à nossa realidade, não seria exagero dizer que aqui no Brasil ocorre, ainda hoje, algo bem parecido quando se discute o funk carioca.

( Na verdade, a resistência ao funk é um tanto mais delicada, já que engloba certas distinções sociais e raciais que não cabem nesse texto. Logo, não é de espantar que muita gente ainda se recuse a reconhecer os méritos do gênero em todos os aspectos que mencionei acima: subversão, integração social e, principalmente, diversão. )

É claro que falar em subversão pode variar muito de acordo com o contexto. Pra quem vive num ambiente muito religioso, por exemplo, talvez a coisa mais subversiva do mundo seja colocar Black Sabbath ou Slayer pra tocar bem alto na caixa de som. Da mesma forma, talvez pra quem more na Coreia do Norte seja um ato de rebeldia ouvir Nirvana ou Green Day.

Mas o fato é que, quando falamos de diversão, a coisa não varia tanto assim ao redor do mundo. E isso faz com que seja muito difícil achar um adolescente do século XXI (onde quer que esteja) que se dedique a realmente ouvir um álbum de rock de forma focada – quer dizer, sem usar a música apenas como pano de fundo –, achando aquilo a coisa mais excitante do mundo.

Por outro lado, justiça seja feita: dificilmente esse jovem vai ouvir qualquer álbum dessa maneira – e aí dá pra incluir a música eletrônica e o hip-hop –, dada a quantidade de opções de entretenimento que se tem hoje em dia. Mas aí, como vamos ver no próximo texto, já estamos falando de algo que vai muito além da indústria da música.

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