Sobre bloqueio criativo

Sempre que me deparo com qualquer menção a bloqueio criativo penso no quão importante é cultivar uma mentalidade em relação ao trabalho que ajude a fazer da criação algo menos sujeito a variações de humor.

Isso é especialmente útil pra artistas sem tanto conhecimento de teoria, como é o caso da maioria dos compositores de música popular. Muitos se acostumaram tanto com a ideia de que o processo criativo é uma questão de inspiração que falar em disciplina é quase um sacrilégio.

A questão é que, passada a empolgação inicial do período de descoberta da vocação, se um artista não fizer do processo criativo um hábito – isso é, se ele não estiver disposto a trabalhar na sua arte mesmo quando não se sentir tão inspirado –, dificilmente ele vai conseguir desenvolver todo o seu potencial.

Qualquer resistência em aceitar essa premissa básica vem, acima de tudo, de uma ideia romântica que ainda é bem forte no senso comum: a do “gênio criativo”. E, sabendo que uma mudança de paradigma nem sempre é tão fácil de se realizar, conhecer a perspectiva de vida dos grandes artistas pode fazer uma diferença enorme.

Usando um exemplo pessoal, me considero um felizardo por ter me sentido atraído desde cedo pelos trabalhos de Van Gogh. Foi a partir daí que me interessei também em ler as suas cartas, onde fica mais que evidente que, pra ele, a diferença entre um artista e qualquer outro trabalhador braçal é mínima.

E Van Gogh certamente estava longe de ser uma exceção. O que dizer do caso de Picasso – provavelmente o maior artista do século XX –, que tem uma produção estimada de quase 50.000 pinturas e ilustrações (sem falar nas esculturas, e outros trabalhos gráficos)!

Pablo Picasso

É claro que nem todos esses trabalhos estão no nível de “Guernica” ou “Dom Quixote”. Alguns talvez nem merecessem ter sido preservados, a não ser como fonte de estudo. Ainda assim, de certa forma essas obras “menores” foram fundamentais pra que Picasso desenvolvesse sua visão de forma mais contundente.

Não que a quantidade vá necessariamente levar à qualidade. Mas é no trabalho constante que é possível se aventurar por novos caminhos e ver até onde eles te levam. Ou, como o próprio Picasso teria dito, “a inspiração existe, mas ela tem que te encontrar trabalhando”.

Anúncios

2 comentários sobre “Sobre bloqueio criativo

  1. Gostei bastante desse post, Henri. Sobretudo, do parágrafo inicial. Há tempos, eu me vejo como alguém que trabalha com sensações. Não só por vivê-las com intensidade, mas por ter criado uma relação quase necessária disso com o que eu produzo. Se não estou bem ou “no clima”, praticamente não desejo e se torna um sacrilégio escrever. Porém, experiências me “forçando” a tentar assim mesmo estão mostrando a importância de diminuir essa dependência, bem como o fato de que isso é possível. Acho que deve ser natural pensar que tudo o que envolva a arte possa ter essa dependência emocional, por assim dizer. Mas é válido e, talvez necessário, encarar de outra forma…

    Enfim, obrigada 🙂

    1. Essa questão que você levanta a respeito das sensações é importantíssima, e acho que é realmente a raiz de toda essa questão. Querendo ou não, a gente que tem uma relação muito emotiva com a música corre o risco de se acostumar demais a estar “no clima” pra produzir. O que, como você bem sabe, pode ser bastante contraproducente. grato pelo comentário, Lari!

Os comentários estão desativados.