Qual é o valor de um álbum?

Muito se vem discutindo ultimamente sobre o que vai ser do formato álbum na próxima década. Independente do suporte físico (no caso, o CD) continuar sendo bastante usado ou não, será que alguém ainda vai se importar em ouvir uma certa quantidade de músicas naquela sequência determinada pelo artista? E, afinal, por que essa seria uma questão tão relevante assim?

Como já comentei aqui, o álbum mais recente de Kanye West, The Life of Pablo, se vale da liberdade do streaming pra ser alterado continuamente (inclusive meses depois do seu lançamento original). Esse me pareceu (e ainda me parece) um belo desafio à própria noção de que um álbum é feito de músicas totalmente finalizadas (no que talvez represente o princípio de uma nova forma de entender esse formato).

Ainda assim, não deixa de ser um álbum, já que todas as músicas estão agrupadas numa ordem predeterminada. Em outras palavras, há uma razão pela qual a primeira faixa é “Ultralight Beam”, e não “Famous” (que acabou sendo escolhida como o primeiro single). Kanye sabe que uma mesma faixa, dependendo da ordem em que aparece em relação a outras, pode ser apreciada de forma completamente diferente.

Isso me lembra de quando fui ouvir pela primeira vez Uma Outra Estação, o último álbum da Legião Urbana, lançado um ano depois da morte de Renato Russo. Logo na segunda página do encarte aparece a seguinte inscrição, por parte dos membros remanescentes da banda: “Ouça este disco da primeira à última faixa. Esta é a história de nossas vidas”.

Acredito que foi ali que, conscientemente ou não, comecei a me dar conta da importância de um álbum. Ele não serve apenas pra reunir as músicas mais recentes de um artista, ou pra satisfazer a vontade da gravadora de colocar um monte de faixas juntas (tendo, assim, um produto que justifique um preço mais alto). Ele é, acima de tudo, uma forma de um artista contextualizar o que faz.

É através do álbum que um cantor ou grupo contextualiza a sua obra pra que as pessoas possam entrar no seu universo sabendo qual é, afinal, a sua proposta artística. Às vezes acontece de alguém conhecer apenas as músicas de trabalho de um grupo, e se surpreende ao ouvir o disco inteiro (como no caso dos Los Hermanos, que era uma banda de hardcore e teve como seus dois primeiros singles “Anna Júlia” e “Primavera”).

Como a música de trabalho é, quase sempre, aquela que tem um apelo popular maior, nem sempre ela vai ser a mais representativa do todo. É por isso que é um tanto preocupante a tendência do consumidor de hoje de ouvir cada vez mais playlists em detrimento dos álbuns. O problema não é tanto se esse formato vai acabar ou não. A questão é: se (e quando) isso acontecer, será que vai haver uma maneira igualmente satisfatória de um músico contar a sua história?

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