O músico enquanto diretor artístico

Tem uma cena muito interessante na mais recente cinebiografia de Steve Jobs, com Michael Fassbender no papel principal e Seth Rogen como o cofundador da Apple, Steve Wozniak. No meio de uma discussão tensa entre os dois antes do lançamento do primeiro computador da NeXT (a empresa que Jobs fundou depois de sair da Apple), Wozniak enumera tudo o que Jobs não é.

Pelo menos no filme Wozniak é implacável: “Você não sabe escrever em código; você não é engenheiro; você não é um designer; você não consegue colocar um martelo num prego. (…) Então como é que dez vezes por dia eu leio que Steve Jobs é um gênio? O que você faz?” A resposta de Jobs é sucinta: “Eu conduzo a orquestra. E você é um bom músico, você senta bem ali e é o melhor da sua fileira.”

É muito pouco provável que essa conversa tenha de fato ocorrido, principalmente porque Wozniak é tido como uma pessoa no geral bem amável, e ele e Jobs continuaram se dando relativamente bem a vida toda. No entanto, pra quem conhece a história de Jobs, a sua resposta – inventada ou não – casa perfeitamente com a sua autoimagem, qual seja, a de um artista, tanto (ou até mais) do que um empreendedor.

É verdade que Jobs não costumava botar a mão na massa, mas era ele o principal responsável pela visão dos seus produtos, o que de certa forma justifica esse discurso. E, curiosamente, essa posição parece ser cada vez mais comum também entre artistas dos mais diversos meios. Tanto é que uma hipótese que o musicpreneur* grego Tommy Darker levanta sobre o possível novo papel de um músico é a seguinte: tanto ou mais do que um criador, ele hoje seria aquele que faz uma curadoria de ideias de terceiros – inclusive dos fãs –, num papel parecido com o de um diretor artístico.

Essa filosofia pode parecer um tanto estranha, mas de certa forma se harmoniza bem com as diferentes plataformas online que se baseiam cada vez mais no feedback da audiência – como o Patreon e o Kickstarter. Além disso, entre artistas do hip hop e da música eletrônica é mais do que comum que o músico principal seja, acima de tudo, aquele que seleciona os trechos que mais lhe agradam do trabalho realizado por outros.

Nesse sentido, vale notar o que Paul McCartney disse numa entrevista recente sobre como lhe foi explicado o método de trabalho do rapper e produtor Kanye West:

Eu não sabia o seu sistema. Eu ouvia coisas do tipo, ‘Ele tem uma sala cheia de caras trabalhando em riffs, e ele anda em volta dizendo, ‘Eu gosto daquele’. Isso me lembra de Andy Warhol, esses artistas que usam estudantes pra pintar fundos e coisas do tipo.

É revelador que Paul tenha pensado justamente em Warhol, que foi o primeiro artista a dizer com todas as letras que “ser bom nos negócios é a mais fascinante forma de arte”. E, voltando a pensar em Steve Jobs, é também irônico reparar que, enquanto os empreendedores se tornam cada vez mais artistas, os artistas se reivindicam cada vez mais como empreendedores.

 

*nas palavras de Tommy Darker, um musicpreneur é “um músico independente e polímata que toma conta dos aspectos artístico e empreendedor da sua carreira, criando modelos de negócios e fontes de renda

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