Sincronicidades entre compositores

Acho que muita gente pelo menos já ouviu falar de sincronicidades, um conceito
elaborado pelo psicólogo suíço Carl G. Jung no início do século passado. Segundo a Wikipédia, o termo é usado quando diferentes eventos que não têm uma relação de causalidade entre si se conectam através de um relação de significado.

Ainda que a ideia talvez pareça uma pouco esotérica demais pra alguns (uma acusação com a qual Jung estava bem acostumado), acho que vale a pena observar como esse tipo de coisa acontece entre compositores, e se isso pode ser entendido, de fato, como algo mais que mera coincidência.

Um caso muito interessante é o das músicas “Eu Me Amo”, do Ultraje a Rigor, e “Egotrip”, da Blitz. A primeira foi lançada num compacto em outubro de 1984 (o lado B era “Rebelde sem causa”), enquanto que a segunda foi lançada no terceiro álbum do grupo carioca, dois meses depois. Segundo o jornalista Arthur Dapieve no seu ótimo livro BRock:

A letra de Roger dizia “eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim”. A de Evandro Mesquita e Patrícia Travassos, “eu me amo, eu me adoro, eu não consigo viver sem mim”. Como “Blitz 3” só foi lançado em dezembro os cariocas tiveram de mudar sua letra para “eu te amo, eu me adoro, eu não consigo te ver sem mim”. Pura coincidência. (grifo meu)

Será mesmo? Logo em seguida, Dapieve cita Roger (líder do Ultraje), que diz o seguinte: “Isso acontece. O artista é uma antena. Eu mesmo tenho uma música que nunca lancei, com refrão ‘Eu uso óculos’…” Pra quem não se lembra (ou não sabe), “Eu uso óculos” é um verso de um dos maiores sucessos dos Paralamas, lançado no mesmo ano de 1984 (no álbum O Passo do Lui).

O segundo exemplo é mais recente (vem de junho do ano passado), e talvez até mais interessante. São dois hits do sertanejo com letras muito parecidas: “Aquele 1%”, com Marcos & Belutti (composta por Vinícius Poeta e Benício Neto) e “99%”, com Fiduma & Jeca (composição de Zé Renato Mioto, Diego Kraemer e Tiago Marcelo).

O refrão da primeira tem os seguintes versos: “99% anjo, perfeito/Mas aquele 1% é vagabundo”, enquanto que o da segunda diz: “99% ela é santa, mas aquele 1%/Eu nem te conto o que ela apronta”.

Nesse caso, a explicação é bem mais fácil. Como a ótima matéria do G1 explica, já é prática mais do que recorrente no sertanejo a utilização de memes como fonte de inspiração. Logo, nada mais lógico que artistas do gênero acabem resvalando nas mesmas frases na hora de compor. No caso, a original em inglês é “99% an angel, but oh, that 1%”, e que em português virou mania no Twitter há uns dois anos.

Isso por si só já mereceria uma análise mais detalhada sobre o papel que as redes sociais exercem na indústria de entretenimento – e vice-versa. Como o colega Yuri Pomeranz (do blog Orelha Atômica) mencionou num texto do início do ano, muitos sucessos do funk recente, como “Ta Tranquilo Ta Favorável”, de MC Bin Laden, e “Beijinho no Ombro”, de Valesca Popozuda, parecem já contar com o efeito viral das redes, sendo feitos sob medida pra isso.

No fim das contas, quer estejamos falando de sincronicidades ou não, esse consumo de hits em massa nos mais diferentes contextos me parece um ótimo indício do espírito cada vez mais fragmentado dos nossos tempos. Ao mesmo tempo, não deixa de ser paradoxal (e, a meu ver, um tanto assustador) como essa fragmentação acaba alimentando uma homogeneização cada vez maior.

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