Masoquismo benigno

Quando comecei a entrar mais a fundo em assuntos de desenvolvimento pessoal e, principalmente, espiritualidade, me deparei mais de uma vez com estudiosos de níveis de consciência falando sobre como não existe nada que possa ser considerado de fato “neutro”. Em outras palavras, todo e qualquer estímulo ao qual um ser humano se submete vai ou lhe tornar mais consciente, ou lhe deixar ainda mais limitado nas suas respostas a diferentes situações.

Ainda que naquele momento eu estivesse num período em que tinha parado de compor, nunca deixei de ser um ouvinte assíduo de música. Logo, não demorou muito pra que eu começasse a me preocupar mais e mais com o conteúdo do que ouvia, o que me levou a evitar deliberadamente qualquer música em que predominassem sentimentos tidos como mesquinhos, ou simplesmente “inferiores”. Mais especificamente, essa foi uma fase em que tentei me afastar de manifestações extremas de violência e tristeza na arte em geral.

Assim, eu procurava só ouvir músicas que trouxessem mensagens positivas, e pela primeira vez comecei a me interessar por aquelas com um viés claramente religioso – principalmente as da carreira solo de George Harrison. Ao mesmo tempo, porém, eu me perguntava se isso me ajudava a lidar com certas emoções que, de uma forma ou de outra, continuavam presentes. E, quando elas vinham à tona, pareciam ter uma força tão grande (ou até maior) do que antes.

Ou seja, a grande questão era (e, de certa forma, ainda é) saber se era possível ter uma relação responsável com os estímulos externos em geral e ao mesmo tempo honrar de forma não destrutiva a raiva, a tristeza, o ressentimento e todas essas emoções menos desejáveis. Como a minha própria experiência parecia bem inconclusiva, foi aí que valeu a pena ver o que a psicologia atual tinha a dizer a respeito.

Pelo menos no que se refere à música, os estudos recentes são bem interessantes, e parecem reforçar a ideia de que ouvir uma canção triste pode até mesmo ter um efeito terapêutico em muitos casos. Mas o que mais me chamou atenção foi um artigo de Todd B. Kashdan para a Psychology Today, em que ele menciona um estudo liderado por Paul Rozin sobre situações em que muitas pessoas sentem prazer com a dor.

Rozin se refere a isso como “masoquismo benigno”, e Kashdan chega à seguinte conclusão no seu texto: “Nós estamos no nosso melhor quando podemos transcender a dicotomia do positivo e do negativo – quando as emoções servem como sinais ao invés de obstáculos”. E em seguida lança uma pergunta ao leitor: “Como você está treinando você mesmo a estar confortável em se sentir desconfortável?”.

No fim, essa acabou sendo uma das lições mais importantes pra que eu entendesse melhor o meu propósito, assumindo que o que faço é, afinal de contas, música intrapessoal. Não preciso repetir o que já disse há algumas semanas. Basta dizer que acredito, mais do que nunca, que a abordagem de diferentes emoções ajuda a cumprir uma das funções mais importantes da arte, que é a de nos ajudar a reconhecer, aceitar, entender e reavaliar o nosso próprio sofrimento.

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