Sobre a música: “Spirit”

Quem me conhece sabe que não me agrada muito a ideia de um músico brasileiro compor em inglês. Até acho que no geral a língua inglesa tem uma sonoridade mais bonita que a nossa, mas acredito também que cantar em qualquer outra língua vivendo no Brasil tira uma das coisas que mais prezo na música, que é justamente o seu poder de comunicação.

De fato, com uma ou outra exceção, saber que um músico brasileiro prefere cantar em inglês já é o suficiente pra me fazer perder o interesse em conhecer melhor o seu trabalho. Então talvez pareça estranho que, das cinco músicas que escolhi como parte do EP Música de Passagem, uma delas, “Spirit”, seja cantada na língua de Bob Dylan.

A explicação é até bem simples: essa música foi, antes de tudo, um poema (até onde sei, o único) de um dos autores que mais admiro, o americano Steve Pavlina. Uma leitura rápida deixa claro que ele se preocupou bastante em escrever algo que tivesse um esquema métrico e de rimas, o que facilita muito a vida pra quem queira colocar uma melodia por cima.

Em termos de copyright, eu sabia de antemão que não haveria problema nenhum em me arriscar. Isso porque Steve deixa quase todo o seu trabalho em domínio público pra quem quiser republicar e até mesmo comercializar (uma das poucas exceções é o seu clássico livro Pessoas Inteligentes Sabem o que Querem).

Ainda assim, o poema é de uma beleza tão incrível que eu senti a responsabilidade de, pelo menos, não estragá-lo. Além disso, como eu também já sabia que Steve tende a preferir música eletrônica e synth pop, não seria de todo absurdo imaginar que talvez o resultado não lhe agradasse muito.

Felizmente, a história teve um final feliz quando eu lhe mandei uma mensagem a respeito e ele respondeu com um smiley. Além disso, ele fez a gentileza de linkar o vídeo na seção de novidades do seu site, algo que não tenho vergonha nenhuma de admitir que me encheu de orgulho.

É pouco provável que eu venha a escrever uma letra em inglês algum dia, o que faz dessa uma experiência ainda mais especial pra mim. Mas se essa gravação ajudar alguém a sentir com mais intensidade o que Steve quis expressar com o seu poema, então já posso considerar que, de alguma forma, a minha missão foi cumprida. Obrigado, Steve!

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