O artista enquanto cronista do seu tempo

No texto passado mencionei os riscos que surgem quando um artista aborda o processo criativo pensando no legado do seu trabalho. Hoje pretendo falar do outro lado dessa questão, ou seja, a noção de que o artista deve ser um “cronista” do seu tempo.

Essa parece ser uma ideia muito forte na música popular, e não é difícil ouvir músicos brasileiros – principalmente os que viveram na época da ditadura militar – batendo nessa tecla. Mas, por mais nobre que essa concepção seja, ela também apresenta pelo menos um risco considerável.

E que risco é esse? Basicamente, sempre vai ter algo novo acontecendo (e nesses tempos de redes sociais isso parece mais verdadeiro do que nunca), o que torna humanamente impossível dar a devida importância a tudo. E é aí que um artista que entende o seu propósito deve dizer não à maior parte das demandas externas (por mais urgentes que pareçam).

Nesse sentido, comparar um artista com um cronista me parece um desserviço ao que considero o papel da arte. Isso porque um cronista está mais próximo de um jornalista, que é aquele que escreve a sua matéria sobre algo circunstancial e segue em frente procurando pela próxima tendência.

Um artista (como já falei aqui outras vezes) deve antes de tudo seguir a sua visão. Às vezes essa visão vai estar em sintonia com algo que esteja acontecendo, e então ele pode abordar com propriedade esse ou aquele assunto no seu trabalho. Mas na maioria das vezes o seu propósito vai estar na contramão dos temas do momento.

E isso não ocorre porque o artista quer ser “do contra”, ou algo do tipo, mas simplesmente porque: 1) as coisas às quais ele se dedica costumam ir um pouco além de um mero acúmulo de informações; e 2) as notícias correm numa velocidade rápida demais.

Por outro lado, se me disserem que um artista é aquele que expressa o espírito do seu tempo, já acho essa uma afirmativa bem mais razoável – desde que se entenda que é considerável a diferença entre isso e ser um cronista.

É uma diferença um tanto sutil, mas que pode ser colocado da seguinte maneira: o cronista relata o que ocorre, dando a sua perspectiva sobre um assunto de forma pontual. Já o artista explora aquelas questões que mais lhe instigam, e expressa a sua perspectiva mesmo sabendo que muita gente não vai considerar isso tão relevante assim.

Mas faz parte do jogo. A essa altura acho que não preciso repetir aquela frase (que dizem que é de Bill Cosby) sobre tentar agradar a todos. E também não quero dar a entender que é preciso se isolar completamente da civilização, fechando os olhos e ouvidos pro que acontece no mundo.

Mas quero, isso sim, deixar claro que muitas vezes é necessário abrir mão da aceitação da maioria das pessoas. Mais do que nunca, essa me parece a única maneira de se criar uma conexão verdadeira com aqueles que realmente podem vir a se importar com o que um artista faz.

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