Sobre lados B, bootlegs etc.

Dia desses estava dando uma olhada nos livros que minha irmã deixou no seu antigo quarto ainda por desocupar. Dentre eles estava Tudo É Eventual, uma coletânea de 14 contos de Stephen King. Não costumo ler muita ficção – e muito menos terror –, mas achei que não custaria nada conferir um ou dois daqueles textos sem muito compromisso.

Algo que me chamou atenção de cara é o fato de King acrescentar pequenas observações sobre a inspiração por trás de cada uma das histórias. A segunda delas, por exemplo, se chama “O homem de terno preto”, e é uma homenagem a um conto de Nathaniel Hawthorne chamado “Young Goodman Brown”, que King considera “um dos dez melhores já escritos por um norte-americano”. Mas o mais interessante mesmo é a forma com que ele avalia o seu próprio conto:

Considero o produto acabado uma trivial história folclórica escrita em linguagem prosaica, certamente a quilômetros do conto de Hawthorne de que eu gostava tanto. Quando The New Yorker pediu para publicá-la, fiquei chocado. Quando a história ganhou o primeiro prêmio no concurso O. Henry do Melhor Conto de 1996, achei que alguém cometera um equívoco (o que não me impediu de aceitar o prêmio). A resposta do leitor, de um modo geral, foi positiva também. Este conto é a prova de que os escritores são frequentemente os piores juízes daquilo que escrevem.

Ou seja, apesar de não ver nada de mais no texto que escreveu, King foi em frente e o publicou do mesmo jeito (talvez já tendo em mente a sua última constatação, de que confiar demais no próprio juízo nem sempre é a melhor escolha). Mas isso me levou a imaginar o seguinte: e se ele tivesse decidido jogar a história fora e alguém, de alguma maneira, a tivesse encontrado e publicado como um conto póstumo?

Lembro que ouvi uma vez que algo desse tipo teria acontecido com Cazuza. Aparentemente a sua mãe, Lucinha, pegava do lixo muitos dos poemas que ele jogava fora. Não sei se isso é verdade ou não, e nem se esses poemas foram realmente lançados de alguma maneira. Mas, se tiverem mesmo sido publicados, isso me parece um ato de absurda violência de uma mãe contra o legado artístico do seu próprio filho.

Você pode dizer que isso é exagero da minha parte, e talvez seja mesmo. Afinal, quem é fã sempre vai querer saber mais sobre um artista, e qualquer lado B (ou seja, gravações em estúdio nunca lançadas em álbuns oficiais) se torna uma preciosidade pra quem já conhece a maior parte do catálogo de um músico. É assim, por exemplo, com alguns dos lançamentos dos Beatles desde o fim da banda, em especial a série Anthology.

Mas aí talvez seja importante notar a diferença fundamental de que, no caso dos lados B, o artista estava perfeitamente ciente de que aquele material poderia ver a luz do dia cedo ou tarde. Ou seja, faz parte do jogo. O que estou falando aqui, na verdade, são de bootlegs, ou seja, gravações piratas. Quando essas gravações são de performances ao vivo acho ótimo, mas quando elas são de músicas inéditas (conseguidas sabe-se lá como) acho preocupante.

Mas o que há de tão grave com esses bootlegs de músicas inéditas, então? É simples: se, no fim das contas, a palavra final sobre o que é lançado ou não recair sobre qualquer outra pessoa que não o próprio artista, fica muito fácil perder de vista o mais importante, que é justamente a visão e o propósito por trás de cada obra.

Logo, ouvir gravações desse tipo, por mais prazeroso que seja, requer um grau de maturidade que só mesmo a familiaridade com determinado discurso pode dar. Mas, como já falei aqui uma vez, alguém ainda tem paciência pra ouvir música desse jeito?

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