Rivalidades e motivação

De um modo geral, parece ser senso comum entre os autores de desenvolvimento pessoal que o estímulo pra uma ação qualquer deve vir principalmente de dentro, ou seja, uma pessoa deve sempre tentar desenvolver o que chamam de motivação intrínseca. Mas, por mais que esse também me pareça o cenário ideal, não posso deixar de notar que esse tipo de motivação em vários momentos parece ser mais a exceção do que a regra.

Um entendimento da história dos Beatles, por exemplo, deixa claro o quanto da trajetória do grupo foi direcionada pela rivalidade entre John Lennon e Paul McCartney, tanto em relação ao aspecto criativo, como até mesmo em decisões mais pragmáticas sobre os rumos da banda. O próprio Paul diz que se tratava de “uma competição amigável que foi na verdade muito necessária”, e que, mesmo depois da dissolução do grupo, de alguma forma ela ainda se fez presente.

E o que dizer das relações dos Beatles com seus contemporâneos? Alguns dos álbuns mais emblemáticos do século XX são fruto desse tipo de rivalidade. A história mais célebre é a de Brian Wilson, dos Beach Boys, que ouviu o disco Rubber Soul (de 1965) dos Beatles, e quis fazer um álbum que também soasse realmente completo (na época os singles tinham muito mais moral que os LPs). Sua resposta é o até hoje impressionante Pet Sounds, lançado em 1966. Da parte dos Beatles, no mesmo ano veio Revolver, e no ano seguinte, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Nenhum desses álbuns teria tomado forma como o conhecemos se um lado não estivesse sintonizado no que o outro estava fazendo. É mais do que inspiração, ou mesmo “inveja branca”. Sim, tudo isso fez parte, mas também é importante deixar claro que havia ali uma forte vontade de fazer “melhor”, por mais subjetivo que esse termo seja (aliás, dizem que umas das razões que levou Brian Wilson a abortar o álbum Smile foi não ter se sentido capaz de superar Sgt. Pepper’s).

É claro que, a partir do momento em que a competição fica muito acirrada, corre-se o risco de se desenvolver uma relação tóxica, baseada não mais em querer ser melhor que o outro, mas sim que o outro seja pior que você. Às vezes tenho a impressão que esse infelizmente também foi o caso com os Beatles (principalmente a julgar pelas entrevistas de John Lennon já em carreira solo), onde aos poucos aquela rivalidade saudável parece ter se deteriorado e virado uma pilha de ressentimentos.

Também por isso, essa vontade de ser melhor que alguém é mais bem aceita no âmbito esportivo, onde a competitividade é, literalmente, parte fundamental do jogo. Exemplos disso nunca faltaram e provavelmente nunca vão faltar, sendo o mais óbvio de hoje em dia (ainda que bastante velado) o dos dois maiores jogadores de futebol dos últimos anos: Messi e Cristiano Ronaldo.

Aliás, às vezes penso nos companheiros de um jogador como Messi, e sinto que a comparação pode ser útil por outro motivo: justamente por ser quase impossível superar o craque argentino, a sua simples presença em campo serve pra inspirar todos os outros a darem um pouco mais de si. Não chega a ser uma motivação intrínseca (já que depende da presença de outra pessoa), mas o efeito é parecido, porque não se trata mais de querer ser melhor do que ninguém a não ser do que a si mesmo. E isso, no fim das contas, é o que mais importa pra quem leva a sério aquilo que faz.

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2 comentários sobre “Rivalidades e motivação

    1. é uma dinâmica delicada, sem dúvida. ao mesmo tempo que pode ser um combustível e tanto, também acho que depende muito do grau de maturidade dos envolvidos. grande abraço!

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