Sobre o plágio na música

O americano Austin Kleon começa o seu livro Roube como um Artista com uma citação famosa de Picasso: “Arte é furto”. A partir daí, Kleon mostra de forma sucinta e divertida como nada na arte (assim como em qualquer outro campo do conhecimento humano) é totalmente original. Logo, o desafio pra quem cria seria o de ser criterioso o bastante pra se tornar um colecionador, e não um acumulador: “acumuladores colecionam indiscriminadamente, artistas colecionam seletivamente”.

De cara, um músico que me parece ter levado essa filosofia bastante a sério (talvez até demais) é Bob Dylan. Muito disso porque no início ele aprendeu praticamente tudo sobre o que é ser um compositor através de Woody Guthrie e da tradição do folk, onde é bastante comum que uma mesma música seja reescrita com outra letra e poucas variações na melodia. Em outras palavras, é como se fosse um mashup antes desse termo sequer existir.

Desde os primeiros discos de Dylan essa prática é notória, tanto é que tem um artigo inteiro na Wikipédia dedicado apenas a músicas suas baseadas em melodias já existentes. Isso aparentemente não era um problema pra quase ninguém por dois motivos: primeiro, era algo que praticamente todos os músicos de folk faziam; segundo, essas canções eram baseadas em outras de autoria desconhecida (logo, não havia quem movesse um processo). Como o próprio Woody teria reconhecido sobre Dylan e outros jovens cantores da época, “Eles roubam de mim, mas o que eles parecem não perceber é que eu roubei de todo mundo!”.

A diferença daquela época pra esses dias de informação digitalizada é considerável, já que, se uma música conhecida é feita inspirada (conscientemente ou não) em outra, muito provavelmente ela vai, no mínimo, suscitar alguns debates. Exemplo claro disso foi a polêmica a respeito do álbum de 2006 de Dylan, Modern Times, em que aqueles que analisaram as faixas com atenção tiveram dificuldade em achar uma música que não remetesse a outra bem mais antiga.

Mas e nos casos em que a música é registrada de fato, de que forma se distingue entre a influência e a cópia? Até onde eu sei as regras não são muito claras. George Harrison, por exemplo, foi condenado pelas semelhanças de “My Sweet Lord” com “He’s So Fine” (de The Chiffons) com base em uma determinada sequência de notas consecutivas idênticas. No entanto, o mesmo não acontece com “Blurred Lines”, de Robin Thicke e Pharrell Williams, em relação a “Got to Give It Up”, de Marvin Gaye. Ainda assim, os dois músicos foram condenados a pagar uma nota à família de Gaye pelas semelhanças entre as duas gravações.

Pelo menos por enquanto, a impressão é que nesses casos vale mais o exemplo de Potter Stewart, um antigo juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, que escreveu que não sabia dizer o que é pornografia hardcore, mas que ele “sabe o que é quando vê”. No caso da música, o problema de saber o que é ou não plágio é quando a pessoa que “vê” (nesse caso, ouve) não sabe o que procurar e, por não estar familiarizado com determinada cultura, tem dificuldade em discernir entre o que é uma homenagem e o que é um roubo puro e simples.

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3 comentários sobre “Sobre o plágio na música

  1. É um assunto complicado.
    A premissa é parecida com a de um livro que li há algum tempo: A Arte de Imitar.
    Os argumentos são próximos: combinamos muitas coisas que já vimos para formar algo original.
    Quebrando em partes, nada é inédito.

    Muito legal saber como funciona no mundo da música também.

    Com sua licença, convido para baixar a antologia Microcontos Volume 2, grátis na Amazon até sexta:

    E eu adoraria receber uma avaliação sua a respeito da obra.

    Muito obrigado e um abraço,
    Lucas Palhão

    1. bacana! não conhecia esse livro, mas realmente a premissa é muito parecida. vou procurar saber mais, grato pela indicação

      acabei de baixar o ebook. assim que puder vou dar uma lida. abraçs!

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