Benjamin Biolay e Buenos Aires

Ouvi o francês Benjamin Biolay pela primeira vez de um jeito interessante. Enquanto baixava músicas de Serge Gainsbourg no Soulseek, me apareceu dentre os meus downloads uma faixa chamada “Adieu triste amour”, que eu não lembrava de ter baixado. Isso porque de fato eu não tinha. O que acontece é que o Soulseek tinha a opção (provavelmente ainda tem) de um usuário poder enviar uma música a outro, mesmo que este não tenha requisitado o download.

Assim, mesmo sem entender bem o que aquela música fazia ali no meio de tantos clássicos de Gainsbourg, resolvi lhe dar uma chance. Resultado: me apaixonei de cara por aquela atmosfera, aquelas vozes (dele e de Françoise Hardy) e a composição de uma qualidade muito acima da média.

Isso foi há uns dez anos, época do disco À l’origine. Quando o álbum seguinte, Trash Yéyé, foi lançado em 2007, eu já acompanhava a carreira de Biolay atentamente. Então, qual não foi a minha alegria saber que em 2008 ele viria pra cá pra sua primeira mini turnê pela América do Sul (passando também por Argentina e Chile)!

Foi a minha primeira vez em São Paulo. O show foi no SESC Vila Mariana, num teatro longe de estar lotado, pra um público que em sua maioria parecia nem saber quem ele era. Além disso, pelos vídeos seus no YouTube, eu já imaginava que Biolay não fazia o tipo showman, e quem estava indiferente desde o início assim permaneceu até o fim. De qualquer jeito, foi pra mim (e talvez pra mais uma meia dúzia de pessoas) uma experiência fantástica.

Pelo visto a recepção do público na Argentina foi bem diferente, pois já no disco seguinte, La Superbe (de 2009), Biolay incluiu uma faixa chamada “Buenos Aires”. Não é das minhas favoritas, mas a letra vale a menção: “Je suis si bien, suis si bien ici/Que je ne veux plus rentrer à Paris” (“Eu estou tão bem, estou tão bem aqui/Que não quero mais voltar pra Paris”).

Assim, talvez eu não devesse ter me surpreendido tanto em saber que o seu novo álbum se chamaria Palermo Hollywood (referência a um dos bairros da capital argentina), até porque Biolay afirma que visita Buenos Aires pelo menos uma vez por ano já há algum tempo. Pra fazer jus a toda essa devoção, o que temos aqui (previsivelmente, até) é a influência do tango, como se pode ouvir pelo bandoneón de Martín Ferres (do grupo Bajofondo) em faixas como “La débandade”:

Apesar do vídeo acima ser um ótimo exemplo da clássica chanson francesa, Biolay não é bem um tradicionalista. Todos os elementos que ele incorpora na sua música quase sempre a deixam com um caráter ainda mais urbano e moderno, e isso fica muito evidente no dancehall de “La noche ya no existe”, com a participação de Alika (cantora nascida no Uruguai), e na fantástica “Palermo Queens”, que é quase uma cúmbia (com a participação da atriz argentina Sofia Wilhelmi):

Ainda assim, o resultado nunca deixa de soar bastante familiar pra quem conhece seu trabalho, e quem é fã certamente vai se sentir instigado a voltar a essas quatorze faixas muitas vezes. No mais, qualquer análise a essa altura vai ser um tanto comprometida por um motivo: o que temos aqui é, de fato, o primeiro disco de um álbum que só não foi duplo porque disseram a Biolay que essa não seria uma boa ideia. Que venha o volume 2 então!

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