O músico como uma startup (enxuta)

O título desse post foi surrupiado de um artigo de Tommy Darker, um músico grego (atualmente radicado em Londres) mais conhecido por levar adiante as discussões sobre a importância de se aliar a música ao empreendedorismo. Basicamente, pra ele um músico hoje deve se comportar cada vez mais como uma startup, tornando-se assim o que ele chama de musicpreneur (musician + entrepreneur).

Quando Darker fala em startup, ele se refere acima de tudo à ideia da startup enxuta, como colocada por Eric Ries no seu livro homônimo. Nele, a definição de Ries para startup é: “uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza”.

O interessante é que, embora Darker tenha em mente esse conceito pra artistas que não são pop stars, um dos exemplos mais claros disso vem justamente de um dos músicos mais famosos da última década: Kanye West. Principalmente se formos ver a forma com que se desenvolveu (e continua se desenvolvendo) o seu mais recente trabalho, The Life of Pablo, no qual (como mencionei no texto anterior) Kanye vem subvertendo toda a ideia do álbum como um conjunto de faixas totalmente acabadas e organizadas em determinada ordem.

De que maneira? Antes de mais nada, o que Kanye fez nas primeiras semanas do ano foi disponibilizar aos poucos algumas faixas no SoundCloud, sem confirmar se elas estariam ou não no álbum. Até aí, nada de muito novo. Mas desde então o que se seguiu foi que não só a lista de faixas como o próprio título do álbum sofreram inúmeras alterações, e mesmo quando do seu lançamento oficial (primeiramente apenas no serviço de streaming Tidal), o álbum não estava nem de longe terminado de fato. Aliás, mesmo quando The Life of Pablo esteve disponível pra download no seu site, Kanye deixou claro que ele continuaria sujeito a alterações (e não deve ser vendido nem como CD, nem como vinil).

Nesse contexto, embora ele mesmo se refira a The Life of Pablo simplesmente como “arte contemporânea” (o que não deixa de ser verdade), são óbvias as conexões (intencionais ou não) com a ideia de um produto mínimo viável e o processo conhecido como construir-medir-aprender, dois conceitos básicos da startup enxuta. De modo geral, um produto mínimo viável seria uma versão de um produto (ou serviço) ainda não totalmente finalizado, mas já com os componentes suficientes pra ser avaliado de acordo com métricas acionáveis (ou seja, de acordo com o comportamento que se espera que o consumidor venha a ter quando esse produto for mais refinado).

O que Kanye vem fazendo com The Life of Pablo não se aplica perfeitamente a esses conceitos, já que aparentemente as suas decisões são muito mais impulsivas do que baseadas em qualquer métrica acionável. Ainda assim, talvez seja um ótimo indício do tipo de experimento que pode vir a acontecer cada vez mais na indústria fonográfica, e ninguém melhor pra testar essas possibilidades do que um músico tão bem sucedido tanto crítica quanto comercialmente. Uma distinção o álbum já tem: foi o primeiro a alcançar o número 1 da Billboard praticamente só por causa das execuções em streaming.

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4 comentários sobre “O músico como uma startup (enxuta)

  1. Muito interessante, Henry!
    Eu não acompanhei muito de The Life Of Pablo. Tenho uma birra insistente com Kanye e ainda não consegui vencê-la. A princípio, pelo pouco que acompanhei, tinha entendido suas ações como uma demonstração de descaso com os fãs, talvez. Ou de falta de compromisso por já ser “super famoso”. Como uma rebeldia moderna. Mas não me incomodei justamente por conhecer pouco e não saber o que Kanye poderia estar tentando dizer. Gostei muito do ponto que você trouxe. Por mais impulsivas que sejam as ações de Kanye, posso estar começando a compreender porque tantas pessoas vêem ele como um “visionário”.

    1. totalmente compreensível a sua birra com o Kanye, Lari. Posso dizer que o que me agrada nele é que ele faz coisas que a maioria não faz, inclusive no universo do hip hop.

      Dito isso, se você for dar uma chance ao Kanye, eu provavelmente indicaria algum dos álbuns anteriores (principalmente My Beautiful Dark Twisted Fantasy, que é um verdadeiro clássico). abraçs, e grato pela visita!

      1. Vou me lembrar dessa sua dica. Não garanto que vou ouvir, mas é bom saber por onde começar, principalmente em casos de birra haha.

        E voltarei mais vezes! Por alguma razão, quando visitei seu blog antes, achei que não tinha publicações e que você o usava mais para interagir, comentar em outros blogs. Ainda bem que voltei e descobri as publicações 🙂

        1. haha essas coisas são complicadas mesmo!

          talvez você tenha vindo quando o design do site era um pouco diferente, e o menu não estava tão claro. de qualquer forma, é uma honra te ter por aqui. abçrs!

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