O princípio do álbum impermanente

O texto de hoje é uma continuação do anterior, em que comentei sobre o fim do formato álbum, então definido como “uma coleção de faixas totalmente acabadas e organizadas em determinada ordem”. Semana passada falei sobre a segunda parte dessa definição (das faixas “organizadas em determinada ordem”), enquanto que agora pretendo falar sobre o primeiro princípio, ou seja, o de faixas “totalmente acabadas”.

Tanto o músico quanto o consumidor de música se acostumaram com a ideia do álbum como um produto finalizado que representa a visão do artista em determinado momento. No entanto, como já cheguei a mencionar num outro texto, talvez nos próximos anos ser músico signifique cada vez mais abdicar da própria ideia de que uma música venha a estar acabada de fato.

Pra quem escreve canções (caso da maioria dos músicos populares) isso certamente ainda soa muito estranho. Mas no caso de artistas do universo da música eletrônica e do hip hop, por exemplo, nada mais natural. Pra estes, as músicas são entendidas não como canções (que geralmente seguem uma estrutura fechada), mas sim como faixas (que são desde o início feitas pra ser mexidas e remexidas).

Quando falei sobre o último lançamento de Kanye West, The Life of Pablo, uma coisa que mencionei foi que a versão então conhecida do álbum (lançada apenas no serviço de streaming Tidal, do qual Kanye é um dos proprietários) ainda estava sujeita a retoques. Acredito que isso tem muito a ver com o seu notório perfeccionismo como produtor, mas também tem outras coisas em jogo nessa decisão.

Tomemos como exemplo a faixa “Wolves”, que já era conhecida numa versão anterior. Quando Kanye lançou o álbum pela primeira vez, ainda em fevereiro, os vocais de Sia e Vic Mensa (que faziam parte daquela versão) foram removidos, o que gerou muitas queixas de fãs. O resultado foi que o próprio Kanye prometeu no Twitter que iria colocar aqueles vocais de volta. Essa promessa foi cumprida em março, quando ele aproveitou pra dizer que The Life of Pablo é “uma expressão criativa viva, respirando e mudando”, concluindo com a hashtag #contemporaryart .

Num ótimo texto para o blog Hypebot, Bruce Houghton elogiou essa iniciativa, dizendo que fazer o álbum passar de uma declaração pra uma conversa pode revitalizar esse formato na era digital (que, como sabemos, é baseada na interatividade). Até porque, no meio de toda essa discussão, muita gente vem se esquecendo de um outro detalhe: Kanye nem sequer pensa em lançar esse álbum em CD.

Se isso vai virar tendência ou não (e se o próprio Kanye não vai mudar de ideia depois), talvez ainda leve um tempo pra saber. Mas o simples fato de que quase ninguém deu bola pra ausência de um suporte físico é um bom indício de que, daqui por diante, satisfazer o senso de posse dos consumidores de música talvez se limite a mercadorias como camisas, bonés, adesivos etc. Enquanto isso, o álbum como o conhecemos hoje tende a se tornar cada vez mais uma relíquia de uma época não tão distante, mas cada vez menos relevante pro mercado.

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2 comentários sobre “O princípio do álbum impermanente

  1. Será que pode acontecer o mesmo que aconteceu com o vinil quando da chegada do CD? Sabemos que ele hoje é muito valorizado, inclusive a velha e boa vitrola tem um preço absurdo…

    1. Com certeza é uma possibilidade. Se bem que quando o CD virar um produto de nicho vai ser difícil competir com a beleza e, pra muitos, a melhor qualidade do som do vinil. De qualquer forma, ainda temos alguns anos até que isso aconteça! abraçs!

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