Sobre o fim do formato álbum

A morte do formato álbum vem sendo anunciada desde que se vivia o auge dos downloads (cerca de dez anos atrás). Naquela época muita gente dizia que seria inevitável que a indústria da música voltasse à era dos singles (que foi o formato predominante até o início dos anos 60 nos EUA), mesmo que apenas digitalmente. No entanto, com o domínio cada vez maior dos serviços de streaming (principalmente entre os mais jovens), essa lógica parece um pouco abalada, e merece algumas considerações mais atentas.

Antes de mais nada, é importante diferenciar entre duas coisas: o fim do CD como suporte físico principal pra se ouvir música e o fim do formato álbum propriamente dito. Quando falo em álbum, me refiro simplesmente a uma coleção de faixas totalmente acabadas e organizadas em determinada ordem, independente da mídia em que sejam consumidas (daqui a pouco volto a essa definição).

Dizer que o CD como suporte de música deve acabar em menos de duas décadas é uma afirmação que já nem gera muito controvérsia (na melhor das hipóteses, ele pode vir a se tornar um produto de nicho, como hoje é o vinil). A questão que se segue é outra: será que isso acarretará no fim do álbum como o padrão de consumo da indústria? Pra tentar responder a essa pergunta, quero voltar pro que escrevi no parágrafo anterior, de que o álbum é “uma coleção de faixas totalmente acabadas e organizadas em determinada ordem”.

Se formos ver a segunda parte dessa definição – a de “faixas organizadas em determinada ordem” –, dá pra ver que, pra muita gente, o álbum já é passado (se é que já foi realidade algum dia). Segundo uma pesquisa recente com usuários de serviços de streaming dos EUA, Reino Unido e França, a diferença entre os que preferem playlists (31% dos usuários) e os que preferem álbuns (29%) por enquanto até que não é tão grande assim. Por outro lado, entre os que de fato assinam esses serviços, a preferência pelas playlists já corresponde a 68% dos usuários.

Confesso que tenho bastante resistência a aceitar isso como uma realidade que se aproxima cada vez mais. Essa minha resistência, é bom que se diga, vem não só por ser um músico, mas também porque, acima de tudo, me considero um fã de música. Cresci ouvindo álbuns inteiros, e aprendi a ter um enorme respeito pelo sentido de unidade que o artista pretendia com cada um deles.

Além disso, entendo que um álbum é, acima de tudo, um conjunto de faixas que o artista considera representativas da sua visão naquele momento. Se tudo o que se tem são faixas espalhadas aleatoriamente, seria isso o suficiente pra que um músico conte a sua história? OK, você pode dizer que a história hoje é contada também através de redes sociais, site oficial, singles, clipes, material promocional, merchandising em geral etc. Ainda assim, de que forma as diversas músicas seriam apresentadas em relação umas às outras?

Enquanto um álbum é um grupo de faixas escolhidas conscientemente pelo artista, a playlist é criada baseada no gosto de cada ouvinte (às vezes até mesmo através de algoritmos), que por sua vez dificilmente vai ter uma noção do que o artista pretendia se só o que conhece é uma porção de músicas pinceladas aqui e ali. Que fique claro que não sou nem de longe contra as playlists, e tampouco falo aqui de negar a subjetividade do ouvinte. Só acho importante saber que mesmo essa subjetividade só pode ter algum nível de profundidade quando entendida sob um contexto maior.

Talvez tivesse razão Fraser T. Smith (compositor e produtor de sucessos de Adele e Sam Smith) quando especulou, há cerca de dois anos, que “o futuro da indústria é que haverá essa divisão entre artistas que produzem álbuns e aqueles que não. Não vai ser mais essa coisa uniforme”. Essa divisão, supõe-se, vai se basear fundamentalmente no retorno do investimento em vendagens. É esperar pra ver.

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3 comentários sobre “Sobre o fim do formato álbum

    1. agradeço pelo convite, Mirianne. por enquanto não tenho a intenção de responder tags, porque acho que não tem muito a ver com o que quero que o blog seja. mas ainda assim me sinto honrado pelo seu convite, e daqui a pouco vou conferir o seu texto também! abraçs

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