Sobre os métodos pra criação

É muito comum ouvir de um cantor-compositor que pra ele não existe um método pra criação. No programa Zoombido (Canal Brasil), em que Paulinho Moska entrevista diversos compositores de música popular (e às vezes nem tanto), uma resposta típica é a seguinte: “Não tem um método. Às vezes começa com a letra, às vezes com a música, às vezes letra e música vêm juntas…”.

Isso é bem curioso, porque se você fizer essa pergunta a um artista plástico, escritor ou cineasta, são grandes as chances de que ele te descreva em detalhes o seu processo criativo. Por que então com compositores isso costuma ser diferente?

Talvez porque pra um músico seja mais difícil “enxergar” a forma com que se chega ao resultado final, já que apreciar uma música não depende de visualização (embora sinestesias ocorram de forma espontânea). Não só isso, às vezes a música não depende de nenhum recurso externo pra acontecer. Não posso dizer o quanto isso é comum, mas sei de músicos que fazem canções inteiras sem usar nenhum instrumento e sem colocar nada no papel.

Outra questão é que a criação da música, seja na composição em si ou nos arranjos, traz muitas possibilidades de colaboração. Logo, quanto mais pessoas envolvidas, menos previsível e linear tende a ser o processo. Não chega a ser impossível pra um músico bater o escanteio e ir pra área cabecear, mas é bem raro que isso ocorra, a não ser que você seja o Prince (e ainda assim, sempre ajuda ter pelo menos alguém pra quem mostrar a música antes de lançá-la).

Apesar de todas essas possibilidades, geralmente um método se sobressai aos outros, quer o músico tenha ciência disso ou não. E por que ele iria se dar ao trabalho de prestar atenção nisso, ao invés de simplesmente deixar fluir? Em primeiro lugar, porque o reconhecimento do método possibilita brincar com mudanças de estilo. É diferente compor uma música no violão ou no piano. É diferente compor uma música estando sentado ou em movimento. É diferente compor uma melodia sobre uma letra, ao invés de uma letra sobre uma melodia.

Poder experimentar com diferentes abordagens é que torna as coisas interessantes, principalmente depois de anos fazendo tudo mais ou menos do mesmo jeito (e o pior, sem nem se dar conta). Não sei de nenhum artista que tenha se prendido a um método por toda a vida, e isso é mais do que compreensível.

É claro que os ouvintes nem sempre vão aprovar uma mudança. Muita gente lamenta até hoje o fato de Jorge Ben Jor ter trocado o violão pela guitarra, já que uma mudança dessas no método de criação muda consideravelmente o tipo de canção que se escreve (ou seja, não é apenas uma questão de arranjos, texturas, ou o que quer que seja). Mas convenhamos que, depois de gravar um disco como A Tábua de Esmeralda, realmente não é fácil fazer algo de diferente com o violão.

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4 comentários sobre “Sobre os métodos pra criação

    1. grato, Cris 🙂 no momento, o que mais estou curtindo fazer é musicar poemas, e então escrever a minha própria letra em cima da melodia. e você, como é o seu processo?

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