Sobre os prazos pra criação

Dizem que uma vez perguntaram ao Tom Jobim qual seria a sua maior musa inspiradora, no que ele teria respondido sem pestanejar: “os prazos”. Considerando que esse é o mesmo homem que já teve Helô Pinheiro como musa, é o tipo de resposta que merece atenção.

Se formos pra pensar, um prazo é uma forma de ativar dois princípios psicológicos básicos: o da escassez (já que se reconhece que o tempo é limitado) e o do compromisso, ambos muito bem analisados por Robert Cialdini no seu clássico livro As Armas da Persuasão. Quando esse prazo está vinculado a um contrato assinado, então, tem-se uma situação de comprometimento extremo, já que os danos de não cumpri-lo não são só morais, como também econômicos.

Por isso, tenho certeza que Tom está longe de ser o primeiro artista a reconhecer esse estímulo. Uma das razões para muitos músicos que trabalham para o cinema (Ennio Morricone, John Williams etc.) serem tão prolíficos por décadas a fio é justamente o fato de escreverem quase sempre por encomenda, o que os ensina a trabalhar com um foco fora do comum.

Esse era o caso também de músicos populares de décadas atrás, quando as gravadoras estabeleciam contratos nos quais eles tinham de gravar um disco a cada doze meses, ou uma quantidade X de discos em 5 anos. Aliás, esse tipo de contrato explica também o lançamento de muitas coletâneas completamente fora de hora, assim como a gravação de discos inusitados. Mas aí já é outra história.

Voltando à questão do prazo ligado ao estímulo econômico, talvez seja por isso que, quanto mais consagrado é um músico, parece que maior é a tendência de que ele não cumpra os prazos pra lançar um álbum. Não é que “a fonte secou”, mas sim que gravar um disco acaba se tornando uma dentre várias outras atividades, muitas das quais dão a esse artista um retorno financeiro muito mais imediato. Essa tendência me parece nítida em nomes como U2, Metallica e Rolling Stones (banda que nem se dá mais ao trabalho de gravar um álbum antes de sair em turnê).

Existiria então algum motivo, pra além da necessidade financeira, pra que alguém em sã consciência queira se impor prazos pra criação? Com certeza. Uma maior produtividade é uma questão de aprendizado. Nada ajuda mais um músico a encontrar sua voz do que experimentar, mas sem esquecer de terminar o que começou. De pouco adianta um monte de ótimas ideias inacabadas no processo de amadurecimento de um artista.

Essa abordagem obviamente vai contra a concepção romântica da arte como um lugar misterioso e praticamente inacessível. Nesse sentido, me parece que os grandes pintores tinham um entendimento muito mais pragmático da situação. Já falei aqui de Van Gogh como um exemplo disso. O que dizer então de Picasso, que fez dezenas de milhares de quadros (isso sem falar nas esculturas)? Será que ele tinha a necessidade de produzir tanto assim? Provavelmente não. O que ele certamente tinha era o entendimento de que se manter comprometido com o processo é a melhor maneira de se explorar os limites da expressão artística.

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7 comentários sobre “Sobre os prazos pra criação

  1. Muito interessante essa reflexão, Henri! Como escritora e poetisa amadora, devo dizer que só produzo minhas obras literárias quando a inspiração vem, o que certamente me levaria a passar fome se dependesse disso para viver (rsrs). Em contrapartida, como redatora e copywriter, entendo bem a questão dos prazos e, queira ou não queira, a inspiração tem que vir de algum lugar e a tempo para entregar as pautas para os clientes. De fato, criar é um hábito, mas exige também muita dedicação no que se refere a buscar a inspiração necessária. No caso das criações artísticas, seriam a leitura, a apreciação de diversos estilos musicais, a observação da natureza, etc, que levariam o artista ao amadurecimento. Caso contrário, a produtividade fica limitada e as obras se tornam rasas, puramente comerciais. Estou certa?

    1. Nossa, perfeito esse comentário. Me lembrou o que o Stephen Covey fala em “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, sobre manter o equilíbrio entre produção e capacidade de produção (ele usa a metáfora da história da galinha dos ovos de ouro). É comum que se menospreze uma coisa em detrimento da outra. Valeu pelo lembrete!

      Não sabia que você escrevia poesia também. Tem algum espaço com seus textos?

  2. Excellent write up and observations. Deadlines seem to motive or break people, and for many people, like Morricone and Williams, it probably isn’t work without a deadline. In my normal job, clients often want the impossible done in an improbable time-frame, and it really makes me focus and cut out what’s not necessary to complete the project. When I watch a movie that would have been a good movie if they cut out superfluous scenes and cut the time in half, I believe the film makers obviously had too much budget and too long of a deadline. It’s like Billy Joel sings in the “Entertainer”

    “It was a beautiful song
    But it ran too long
    If you’re gonna have a hit
    You gotta make it fit
    So they cut it down to 3:05”

    I think it’s a touch market for songwriters and musicians today. The money is in live performances, but they have to have new material to perform, especially if they have not been around for 30 years and already have a huge repertoire and following.

    1. Couldn’t agree more. Setting limitations seems to be the only way to save a project (specially for a perfectionist). That’s one reason why it gets harder for older musicians to still be relevant these days, even though many still make lots of money anyway. By the way, what’s your “normal job”?

      1. Hi Henri! I started to write a response to this a couple of days ago and got caught up in deadlines (funny thing huh?), and then I realized I never submitted my response. I’m the director of information technology, and chief operations and security officer at office. I do a lot of database management and development, and build web apps. The three people who work in my department build web applications, mobile applications, and do data analysis. I also take care of all the maintenance, operations and security of the two buildings we are in.

        A lot of older musicians still have a lot of good music in them, and in the past their new music has often been considered not fitting for the market by the record companies, making it difficult to get new albums recorded. This happened to Johnny Cash in the 1990’s when he wanted to record and release solo acoustic material, but it didn’t fit the formula for country music in the 1990’s.Then Rick Rubin, a rap and heavy metal producer, invited Cash to record his songs under the American Recordings label. I remember reading an interview with Johnny Cash about his experience working with Rick Rubin — he said that it was really refreshing to work with a Rubin, because he simply set a microphone in front of Cash and told him to play and sing. No formula, no direction, just simply Johnny Cash and his guitar. The resulting album was a hit (I have the CD it’s a good album).

        Today, older musicians can self publish new music and release it on the Internet, but I think many older musicians and groups get trapped by their fans who are not interested in hearing new music from then, they want to hear the classics. When I saw Don McClean perform in a very intimate setting 30 years ago, he gave a stellar performance that I will never forget. But as great as the show was, we, his small and enthusiastic audience that night, where not going to let him leave the stage until he played “American Pie”. He finally played it for us, but I think he had really not planned on performing it if we had not insisted.

        1. It must be a lot of fun to build web apps, with so much weird stuff to get inspiration from!

          It’s interesting how older musicians many times get unintentionally stuck in the past. I thnk I’d also be very disappointed if I went to see Don McLean live and he didn’t play “Vincent”. However, if I went to see Bob Dylan and he didn’t play “Like a Rolling Stone”, it’d be ok for me.

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