O crowdsourcing na composição

No último texto comentei uma diferença fundamental que Chico Buarque mencionou entre ele e Tom Jobim: o fato de que o maestro se mostrava muito mais à vontade pra mostrar suas composições inacabadas (sem nenhuma cerimônia em pedir ajuda a outras pessoas), enquanto Chico se dizia “incapaz de partilhar um momento como esse”.

Dito isso, cabe aqui um esclarecimento importante: quando Chico fala sobre Tom pedindo opiniões (ou até mesmo sugestões) de terceiros, ele se refere, obviamente, a outros músicos, ou pelo menos outras pessoas inseridas no meio musical (afinal, é pra isso também que serve um produtor).

Acontece que o “obviamente” do parágrafo anterior já não é mais tão óbvio assim. Isso porque, como já mencionei em outra ocasião, uma particularidade destes tempos de exposição em redes sociais é o crescimento da expectativa de que, de uma maneira ou de outra, o público tenha uma participação muito mais ativa em decisões que antes tendiam a ser exclusivamente do artista.

E é aí que entra o conceito de crowdsourcing, um termo em inglês utilizado para fazer referência à prática de recorrer à contribuição coletiva (em geral online) para a resolução de problemas de qualquer natureza. Na música, um tipo muito popular de crowdsourcing é o crowdfunding, ou seja, o financiamento coletivo, que pode servir tanto para projetos únicos (caso de sites como Kickstarter, Indiegogo, Catarse etc) quanto para modelos de contribuição recorrente (como no site Patreon).

E até que ponto essa lógica pode ser aplicada à composição? Talvez como forma de responder a essa pergunta, no ano passado surgiu o site Hook(ist), com a proposta justamente de ser uma plataforma de composição colaborativa. A ideia é a de juntar compositores já estabelecidos para compor junto com os usuários do site, que pagam para ter a oportunidade de sugerir alguma letra de música. A partir de então, o próprio artista poderá aproveitar os versos que lhe pareçam mais interessantes.

Se essa iniciativa vai vingar ou não ainda é cedo pra dizer, mas o fato é que a ideia do crowdsourcing na composição não é de todo nova. Um exemplo disso foi aqui mesmo no Brasil há alguns anos, quando Fernando Anitelli, líder do Teatro Mágico, compôs uma canção (“O Que se Perde Enquanto os Olhos Piscam”) junto com seus fãs no Twitter, pedindo a eles que citassem “objetos que a gente perde e não se dá conta”.

Esse tipo de coisa me parece feita sob medida para artistas menos individualistas, que não têm problema em se despir da vaidade e da necessidade de ter total controle sobre o processo. Pessoalmente, como não me encaixo tanto nesse perfil, não é o tipo de coisa que me deixaria muito confortável testar. Mas como “confortável” e “arte” são duas palavras que não combinam muito bem, talvez seja uma ideia que valha a pena levar em conta mais pra frente.

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2 comentários sobre “O crowdsourcing na composição

  1. Bom, gostei de conhecer esse conceito, crowdsourcing, mas, confesso, não entrou na minha cabeça esse lance não. Tenho pra mim que em algum momento isso pode não dar certo. Enfim, gostei de aprender mais um pouco Henri. (^^^) 😉

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