O cancionista e o maestro

Da mesma entrevista de Chico Buarque de que falei há duas semanas, em que ele mencionava (isso há mais de dez anos) a tese sobre o fim do formato da canção como o conhecemos (o que quer dizer, de fato, o fim da relevância artística deste formato), surgiram revelações muito interessantes sobre o seu amigo e “maestro soberano” Tom Jobim:

Ele não tinha pudor de mostrar as músicas rascunhadas. Mostrava. Pedia palpites. Ver o Tom em ação, e tendo dúvidas, em processo de criação, era formidável – e difícil. Eu sou incapaz de partilhar um momento como esse, uma obra rascunhada, um pedaço de música ou de letra.

Essa citação, simples como pode parecer, diz muito sobre uma provável diferença entre Tom Jobim e Chico Buarque, diferença essa captada por Rogério Skylab quando disse: “Tom Jobim e Vinícius de Moraes são músicos, não são cancionistas. Caetano é cancionista, Chico, Djavan também são.”

Visto isso, sendo Chico um cancionista, ou seja, um cantor-compositor, é mais provável que ele tenda a uma visão um pouco mais formatada quanto ao método de composição. Por mais que ele tenha também feito várias músicas em parceria com outros artistas, geralmente há uma separação clara no processo (ou seja, um faz a letra, o outro faz a música).

Já Tom Jobim, desconfio, acima de tudo pensava muito mais na música como um todo, o que incluía performance, arranjos, gravação etc. Para o maestro a composição talvez fosse apenas uma parte desse todo, e mesmo já com letra e melodia a música nem de longe estava “resolvida” de fato. Em outras palavras, havia muito mais possibilidade para desconstruí-la durante a gravação – e também depois.

Talvez entre uma abordagem e outra esteja boa parte do desafio para que a canção se mantenha relevante nos dias de hoje: conciliar, na medida do possível, escrever uma música que possa ser entendida de maneira simples, mas que também possa ser vivenciada para além de letra, melodia e harmonia – e, talvez, para além mesmo da própria ideia de que a música em algum momento venha a estar “pronta”.

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2 comentários sobre “O cancionista e o maestro

  1. Penso que compor letra deve ser bem mais simples e também mais estranho que compor música. Compor só a letra seria talvez como ter o corpo mas não ter a alma. As notas meio que funcionam como o sopro de vida. xiiii Viajei?

    1. Olha, na minha experiência é o contrário. Talvez pra você que é poeta até seja, mas pra mim é muito difícil escrever uma letra sem mudar algumas (ou muitas) coisas depois.

      Essa sua comparação de letra e música com corpo e alma me parece que tem a ver com as tais diferenças entre o hemisfério esquerdo e o direito do cérebro. Se não foi essa a sua intenção, então quem viajou fui eu! 😛

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