Van Gogh e o artista enquanto trabalhador braçal

Semeador com Sol Nascente (1888)
Semeador com Sol Nascente (1888)

Uma das coisas mais admiráveis na trajetória de Vincent van Gogh é o seu esforço genuíno por dignificar a experiência do trabalhador braçal, principalmente o trabalhador do campo. A influência do seu pai, um pastor calvinista, e a sua própria experiência como missionário na Bélgica fortaleceram nele o desejo de servir de algum jeito, e foi certamente esse desejo, que lhe acompanhou por toda a sua carreira como pintor, que lhe induzia a se comparar frequentemente com esses trabalhadores. Isso fica óbvio, por exemplo, quando ele fala dos camponeses numa carta para a mãe: “estou arando minhas telas como eles fazem nos seus campos”.

Na mesma carta, ele dizia um pouco antes: “embora eu tenha visto Paris e outras grandes cidades por muitos anos, eu continuo me parecendo mais ou menos como um camponês de Zundert [sua cidade natal]”. Essa e outras afirmações do tipo são um indício claro da forma com que ele se enxergava, e a partir daí é bastante lógico perceber as consequências que isso teve na sua ética de trabalho, sendo que duas coisas saltam aos olhos: a sua vontade de se aperfeiçoar constantemente no seu ofício, e a visão não imediatista do resultado do seu trabalho. Em outras palavras, Vincent era um homem que não buscava atalhos em nada do que fazia.

Penso que, no geral, esse é um tipo de perspectiva muito saudável, e que poderia ser mais difundida nos dias de hoje. Parece que pra muitos artistas ainda impera a ideia de que a inspiração simplesmente aparece, e que não requer muito comprometimento. Felizmente Vincent não pensava assim. Ele sabia que levaria tempo pra chegar aonde queria, e que o seu caminho iria requerer muito esforço e dedicação. De fato, aquela que é geralmente considerada a sua primeira grande obra, Os Comedores de Batatas, só foi realizada em 1885, nada menos que cinco anos depois de ter decido se tornar um pintor, já com 27 anos.

A impressão que se tem ao ler suas cartas e ver seus quadros é que, apesar de todas as suas dúvidas e conflitos, não havia nele uma gota de soberba ou cinismo. Toda a sua obra era uma manifestação fiel da sua busca espiritual, e o próprio trabalho era um instrumento de autorrealização (ainda que suas vivências lhe tenham feito se desencantar consideravelmente com a religiosidade mais formal). Agora imagine se Van Gogh vivesse pensando no tempo que levaria até chegar a pintar grandes telas, ou em quantas telas teria que terminar até poder amarrar o burro na sombra.

Se essas coisas passavam pela sua cabeça, elas eram logo deixadas em segundo plano por conta do valor do trabalho na sua vida. Se formos parar pra pensar, a coisa é até bem simples. Da mesma forma que um camponês ara a terra e um tecelão trabalha na sua máquina, um pintor pinta na tela. Foi assim que Vincent aprendeu o seu ofício, aliando o seu talento natural a muito estudo e muita prática. Infelizmente, isso frequentemente era feito à custa de sua própria integridade física e mental, mas essa já é uma outra história, que em nada desmerece os seus acertos – que foram muitos.

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6 comentários sobre “Van Gogh e o artista enquanto trabalhador braçal

  1. Nossa. Que achado esse link pras cartas… sensacional isso Henri. Valeu demais! Agora, o que mais me chamou atenção foi a sensibilidade dele, a percepção da natureza revelada num lirismo quase entalado no peito, doido pra pular pra tela. Uau! Adorei tudo e, claro seu texto. Afinal sua volta fora da linha revelou seu bom gosto e habilidade pra além das notas. 😉

  2. Muito bacana esse post, Henri! Concordo com você, a maneira de pensar e agir de Van Gogh deveria ser mais difundida. E não falo isso pensando apenas na produção artística!

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