A canção analítica de Jorge Drexler

Ouvi o uruguaio Jorge Drexler pela primeira vez na época do discaço Eco, de 2004, cuja faixa-título me faz viajar desde sempre. Isso foi pouco antes dele ter vencido o Oscar de melhor canção original por “Al otro lado del río”, da trilha sonora de Diários de Motocicleta (também por isso um filme de tremendo apelo emocional pra mim).

O que instiga em Jorge Drexler não é “apenas” a incrível qualidade e consistência de tudo o que faz, mas também a forma como suas canções e toda a sua obra trazem em si um senso de fluxo constante. Me pergunto até que ponto os rumos do seu trabalho são influenciados por toda a conversa que se vem tendo, pelo menos desde o início do século, sobre o fim da canção. Como disse Chico Buarque numa entrevista de 2004: “Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado”, pra depois fazer a ressalva de que “às vezes acordo com a tendência de acreditar nisso, outras não”.

Enquanto Chico, em parte por ser vinte anos mais velho, se diz resignado a “refazer da melhor maneira possível” o que já fez, Drexler segue um caminho de maior diálogo com novas tendências e sonoridades. O melhor exemplo disso veio há três anos com a app n, um grupo de três canções que podem ser modificadas, cada uma de um jeito muito particular, à medida que vão sendo executadas. Como sei que essa definição não faz jus ao app, o vídeo abaixo, da primeira canção, ajuda a entender um pouco a brincadeira:

Como é possível ver, é o tipo de coisa que sequer se pode comercializar no formato de um álbum convencional, já que não faz sentido escolher apenas uma versão definitiva dentre as inúmeras (“n”) possibilidades apresentadas (nisso o seu projeto se difere consideravelmente de outras experiências em smartphones, como o Biophilia, de Björk).

Mas o interessante mesmo é que, com toda a sua veia analítica (até porque Drexler era médico antes de se dedicar à música), o que o uruguaio faz nunca deixa de ser canção. Como disse numa entrevista antes de lançar o app, seu prazer vem de “explorar os limites da canção como gênero” (e não fingir que esses limites não existem). Em outras palavras, continua sendo música que pode ser tocada só com voz e violão – embora nem sempre tão facilmente assim.

Pode parecer pouco, mas não é. Além de revitalizar a canção na sua imersão em diferentes meios, iniciativas como essa ajudam a fazer da música uma experiência realmente interativa pras novas gerações, que quase nem sabem o que é parar para ouvir um álbum do início ao fim. Esse é curiosamente mais um dos paradoxos destes tempos em que a música está cada vez mais presente aonde quer que se vá, mas por isso mesmo tem um papel cada vez mais difuso na vida da maioria das pessoas.

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3 comentários sobre “A canção analítica de Jorge Drexler

    1. Ele é o cara, né! Tenho dificuldade em não gostar de qualquer coisa que ele faz, até porque na pior das hipóteses ele tá sempre se arriscando de alguma maneira. Abraçs!

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