O paradoxo da escolha no consumo de música

Uma palestra TED muito famosa, de 2005, é a do psicólogo Barry Schwartz, intitulada “O Paradoxo da Escolha” (mesmo nome do seu então recém-lançado livro). Nesta apresentação, Schwartz questiona o pressuposto de que uma maior quantidade de opções em qualquer circunstância necessariamente aumentaria o bem-estar das pessoas, dizendo que frequentemente ocorre justamente o oposto: mais opções nos deixam ainda mais confusos, e muitas vezes até mesmo paralisados.

Embora Schwartz deixe claro que isso não se restringe à lógica de consumo (mesmo na dimensão afetiva é possível observar esse padrão), muito dessa filosofia pode ser observada em relação às mudanças recentes no ato de escutar música. Certa vez comentei aqui que uma das principais diferenças que a internet trouxe para a indústria foi que a música perdeu o seu caráter de escassez e, consequentemente, muito do seu valor social. Há dez anos, quando os downloads eram a grande febre, não eram poucos os casos de pessoas com o iPod inundados de faixas, mas que não chegavam a ouvir nem um terço delas.

Hoje, com os serviços de streaming, o leque de opções é ainda maior, já que nem mesmo há a necessidade da posse do arquivo de áudio. Consequentemente, é muito mais fácil que aquele álbum que se queira ouvir esteja à mão em qualquer momento (mesmo que ele seja indefinidamente deixado pra depois, até finalmente cair no esquecimento).

Mas o dilema não se resume a isso. Schwartz ressalta que, com uma variedade absurda de opções, quando uma decisão é tomada, ainda assim a tendência é que fiquemos insatisfeitos. A razão é que, consciente ou inconscientemente, bate aquele arrependimento por imaginarmos que algumas das opções ignoradas seriam melhores, ou pelo menos mais adequadas ao nosso caso.

É claro que pra muita gente isso sequer se configura num problema (Schwartz não ignora que essa é uma tendência das “modernas, opulentas sociedades ocidentais”, enquanto que em muitos lugares do mundo a questão é justamente a ausência de escolhas). De qualquer forma, podemos entender que ao menos uma parte da solução está em abraçarmos as limitações, entendendo que elas são de grande ajuda ao nos trazer mais clareza não só em relação ao que queremos, mas também a respeito da importância que aquela decisão terá nas nossas vidas.

Em termos de música, de uma maneira ou de outra já nos limitamos de diversas formas, dentre estas os nossos gostos prévios, nossos círculos de relações e a avaliação da crítica especializada. Com os serviços de streaming, inclusive, um fator que tem servido cada vez mais como atalho pra descobertas são as playlists, a maioria com base em algoritmos, mas muitas outras também com a curadoria de celebridades em geral (até Obama montou as suas pro Spotify).

Maravilha, mas nada disso nos livra da questão maior, que é o desafio de termos uma relação mais imersiva com a música. Fico pensando: agora que a discografia inteira dos Beatles finalmente chegou aos serviços de streaming, quantos desses usuários de fato vão se dar ao trabalho de descobrir o catálogo da banda britânica à vera? Isso implicaria em dizer não, nem que seja por um tempo, para o top 10 da Billboard e para as próximas atrações do Lollapalooza. Tendo isso em mente, novamente neste blog parafraseio Joseph Campbell, desta vez no livro O Poder do Mito, em que ele nos traz uma perspectiva muito bem vinda para a nossa relação com a cultura em geral:

Quando você encontrar um autor que o prenda de verdade, leia tudo o que ele escreveu. Não diga: ‘Ah, preciso conhecer o que fulano ou beltrano fizeram’, e nunca perca tempo com as listas de best sellers. Leia apenas o que esse determinado autor tem a lhe oferecer. Depois você poderá ler o que ele tenha lido. Então o mundo se abrirá, em coerência com um certo ponto de vista. Mas quando você salta de um autor para outro, isso o habilita a dizer em que data cada um deles escreveu este ou aquele poema – mas nenhum deles lhe terá dito nada.

Em outras palavras, as opções estão aí, e temos todas as possibilidades para abraçar uma visão de mundo, que traz consigo diferentes descobertas e experiências de vida. A pergunta que fica é: será que teremos paciência pra isso?

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4 comentários sobre “O paradoxo da escolha no consumo de música

  1. Muito bem posto! A música, diferente dos livros, dos filmes e das artes plásticas, não demanda atenção total e constante do ouvinte para ser escutada (afinal, não é incomum escutarmos uma música enquanto realizamos outras atividades, como forma de distração ou de concentração), mas, para ser de fato apreciada, é preciso tempo, dedicação exclusiva e paciência, muita paciência.
    Essa questão da escolha me fez lembrar Fernando Sabino em O Encontro Marcado: “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.”

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