A música na política (e vice-versa)

Um diferencial considerável de ser um músico no Brasil hoje em dia é que, apesar de toda a agitação política, não há (ainda) uma patrulha, nem de um lado nem de outro, para que se faça “música engajada”. Os que acreditam que o artista deva ser um cronista do seu tempo provavelmente vão lamentar essa postura, e entendê-la com um sinal de uma geração exageradamente individualista.

Sinceramente, não vejo esse tipo de coisa como motivo nem de celebração, nem de preocupação. Quer queira ou não, um artista nunca vai escapar de falar sobre a época e o lugar em que vive, pois são estas duas variáveis que definem os ambientes culturais, sociais e políticos em que interage. Logo, a própria escolha de não falar diretamente sobre política parte de uma vivência subordinada a diversos fatores, que por sua vez nos levam a diferentes valores a respeito do papel da arte em geral.

Ao entrar nesse assunto é difícil não lembrar de Chico Buarque, com certeza o compositor brasileiro mais comumente identificado com essa vertente mais “política”. Não vou entrar na questão do que aconteceu aqui no Rio de Janeiro há duas semanas, porque aquela foi uma cobrança em relação à sua postura enquanto cidadão, e não enquanto músico. O que me interessa aqui é ressaltar que muito do engajamento pelo qual ele ficou conhecido ao longo dos anos veio justamente da sua necessidade de afirmação enquanto artista.

Tendo em vista a pessoa que ele já era, com o seu nível de instrução muito acima da média (é sempre bom lembrar que ele é filho de Sérgio Buarque, um dos maiores historiadores do Brasil), ou ele cantava aquelas coisas, ou ele se calava. Difícil imaginar um universo paralelo em que ele ignorasse o que acontecia pra cantar algo como “Eu Te Amo, Meu Brasil”. Daí a sua relação com a censura da época: “Eles me encheram o saco, mas também enchi muito o saco deles”.

Ao mesmo tempo, Chico sempre foi bem consciente do risco que é reduzir um artista a suas posições políticas, ou mesmo à ideia de que a música esteja subordinada a alguma ideologia. Como ele teria dito em 1978: “Acho absurda a mania de cobrar do artista um engajamento político sobre sua arte”. Por outro lado, não é nenhum espanto que ele tenha uma posição política que se reflita, ainda que de maneira sutil, nas suas letras.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

Pra que esse texto não termine como sendo apenas sobre Chico, trago a visão de um amigo seu (e que também sabe o que é esse tipo de patrulha), o cantautor cubano Silvio Rodríguez: “Sou dos que acredita que todas as canções são políticas, porque todas propõem algo, ainda que seja trivial. Um pecado poderia consistir em fazer muito óbvios alguns critérios, porque então poderia ocorrer que nos veriam mais como ideólogos do que como artistas”.

Nessas linhas, que Chico certamente assinaria embaixo, está toda a questão para quem faz arte e se interessa por política, que é a de, ao mesmo tempo, reconhecer os limites entre as duas esferas sem fazer disso uma razão para se conformar ou se render ao niilismo.

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