História e subjetividade na experiência musical

Quando, há algumas semanas, abordei os motivos que podem levar alguém a considerar uma música boa ou não, falei um pouco sobre o meu próprio viés, que tende a ser mais emotivo. Na ocasião, encerrei o texto mencionando a voz falha de Neil Young em “Mellow My Mind” como algo que não só não me incomoda, como torna a faixa ainda mais interessante.

Deixei de lado, porém, um outro fator de igual importância pra essa minha percepção: a história por trás da música. Aliás, não só da música, mas de todo o disco Tonight’s the Night (gravado em 1973, mas lançado apenas em 1975), do qual ela faz parte. Como os fãs de Neil Young devem saber, meses antes das gravações duas pessoas próximas a ele (o guitarrista Danny Whitten e o roadie Bruce Berry) haviam morrido de overdose.

Ouvir a música uma vez sem saber disso e depois ouvi-la com essa informação são duas experiências muito distintas, não? Talvez até alguém que esteja lendo esse texto agora tenha realmente vontade de ouvi-la pela primeira vez só por causa disso. Não há dúvida que a história por trás da obra traz uma dimensão nova pra quem está do outro lado.

Um outro exemplo disso é o álbum Double Fantasy (de 1980), de John Lennon e Yoko Ono. Depois de cinco anos sem lançar um disco de estúdio (uma eternidade, ainda mais naquela época), Lennon decidiu retomar a carreira, e tinha até planejado uma turnê para o ano seguinte. De início, porém, o disco não foi um grande sucesso nem de público nem de crítica.

Isso tudo mudou três semanas depois do seu lançamento, quando Lennon foi assassinado na entrada do prédio em que morava em Nova York. O resultado previsível foi que o disco foi para o topo das paradas americanas e britânicas, e qualquer avalição negativa dos críticos (inclusive por parte da revista Rolling Stone) foi simplesmente removida de circulação.

Esse tipo de coisa às vezes causa até certa indignação, porque traz a pergunta: quantos grandes discos não foram ignorados pela crítica e boa parte do público sem receberem uma segunda chance? Não estou falando de discos de artistas ainda buscando um espaço, pois é normal que haja primeiro a busca pelo (re)conhecimento. Falo, isso sim, de grandes discos de artistas já consagrados, mas que por algum motivo não têm o seu valor devidamente reconhecido. É o caso, por exemplo, de boa parte da discografia solo de John Frusciante.

É um grande clichê dizer que o tempo faz alguma justiça a um trabalho artístico, e sinceramente tenho minhas dúvidas quanto a isso. Acredito, isso sim, que o artista deve saber defender o seu trabalho, e entender que, caindo no gosto das pessoas ou não, isso muitas vezes tem pouco a ver com os méritos da sua obra, e muito a ver com a sua capacidade de se mostrar relevante para a sua época.

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4 comentários sobre “História e subjetividade na experiência musical

  1. Gosto de muitos cantores mas, confesso, de bem poucos procuro saber um pouco mais quando escuto. Ouço música pelo prazer de ouvir e só. No entanto adoro espaços como o teu onde posso conhecer o outro lado dela. 😉

    1. Pra mim é difícil gostar de um artista sem querer saber mais a respeito, e o resultado é que depois acabo gostando mais ainda! Grato pelo elogio, até porque a recíproca é verdadeira 🙂

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