John Frusciante e o seu público

Há um mês, John Frusciante, ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, lançou de forma gratuita na internet algumas de suas músicas gravadas entre 2009 e 2011. Aproveitando a oportunidade, o músico publicou também um comunicado no seu site oficial, no qual explicava um pouco o processo de criação das faixas, e esclarecia a polêmica gerada após sua entrevista, em maio deste ano, para a revista Electronic Beats. Naquela ocasião, foi enorme o fuzuê por trás de algumas afirmações suas, como a frase: “neste momento, eu não tenho público”.

Algumas pessoas interpretaram essa e outras afirmações como um sinal de que ele jamais compartilharia novamente suas músicas. Mas agora que finalmente foi possível ler um manifesto oficial da sua parte, é mais razoável interpretar aquela entrevista como uma declaração de princípios. Em primeiro lugar, quero contextualizar um pouco as suas palavras lembrando da importância para John de ter crescido e se desenvolvido como músico sob fortíssima influência da cena punk da Califórnia.

E o que isso tem a ver com as suas declarações? Mais do que a sonoridade em si, não é exagero nenhum dizer que a estética punk moldou a sua forma de entender o que é (ou deveria ser) um artista, e é a isso que ele se refere quando escreve agora: “A arte é uma questão de dar. (…) Vendido é um termo antiquado que, quando eu era garoto, se referia aos artistas que adoravam fazer dinheiro mais do que fazer música. A palavra indica uma falta de integridade artística”.

Antes que alguém o acuse de hipocrisia por dizer tal coisa e, ao mesmo tempo, ter vários produtos à venda em seu site oficial (CDs, camisas etc.), que fique claro que esse trecho do texto, a despeito do que possa parecer, não é um libelo anti-comercial. Ao invés disso, prefiro entendê-lo como um exemplo de algo que mencionei neste blog há pouco mais de um mês, que é a separação entre dois estágios: o da criação e o da distribuição da música.

Voltando à sua afirmação de que não tinha uma audiência, ele esclarece: “Reduzindo a uma única frase, teria sido correto dizer que, neste momento, não tenho um público específico em mente enquanto estou fazendo música” (grifo meu). Daí podemos concluir que fazer música comercial e fazer música para ser vendida não são para ele a mesma coisa, e isso fica claro na seguinte afirmação: “Vender é a parte de fazer dinheiro, e a expressão artística, a criação, é a parte de dar. São distintas uma da outra, e é minha convicção que música deve ser sempre feita porque se ama a música, não importando se há planos de vendê-la ou não”.

Apesar disso, não tiro a razão dos que observaram que é muito conveniente para ele dizer essas coisas, depois de passar anos ganhando bastante dinheiro tocando com os Chili Peppers (coisa que ele também menciona no texto). Tão ou mais importante é o fato de que, pela visibilidade que alcançou com a banda californiana, todos nós tivemos o privilégio de conhecer melhor a pessoa que ele é, seus valores, prioridades e visão de mundo. É o tipo de coisa que nem sempre acontece com um músico com o seu tipo de mentalidade.

Finalmente, para os que ainda assim se sentem ofendidos com as suas declarações, não acredito que a sua trajetória deva ser emulada por ninguém. Jamais haverá outro músico como John, e isso não só por causa do seu trabalho, mas também das suas vivências, que são indissociáveis de um momento da cultura pop que simplesmente não existe mais. Cabe a cada um dos músicos de hoje buscar, se assim desejar, maneiras de se manter íntegro e relevante com as novas ferramentas à nossa disposição.

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