Performance e identidade

Partindo da entrevista de Bob Dylan para a revista da AARP, que mencionei na semana passada, quero destacar uma questão que ele levanta, e que considero de fundamental importância para qualquer músico que toque ao vivo: a forma com que um artista acessa seus sentimentos na hora de cantar. Nas palavras de Dylan: “Um ator está fingindo ser outra pessoa, mas um cantor não. Ele não está se escondendo atrás de nada”.

Me atrevo a discordar, e dizer que é perfeitamente possível (até certo ponto) para um cantor se “esconder” num personagem, exatamente como um ator faria numa peça. Isso vale não só para os quatro caras no Kiss, mas também para cantores de pop-rock que criaram diferentes alter egos, como David Bowie (que levou essa brincadeira a um outro nível), Bono, Madonna, Beyoncé etc. Inclusive os próprios Beatles na época de Sgt. Pepper’s poderiam ser incluídos nessa lista, não fosse o fato de que àquela altura eles já não se apresentavam mais ao vivo.

De qualquer forma, é compreensível que Dylan pense o contrário. Por ser ele um cantor-compositor na melhor tradição da música folk, espera-se que tudo o que ele cante seja uma demonstração de emoções genuínas, e ele sabe bem disso. Na música pop, por outro lado, esse tipo de exigência não se aplica.

Aliás, é possível ir além e dizer que, justamente porque no pop tende a haver uma maior dissociação entre a pessoa e a persona do artista, este tende a se mostrar mais confortável em estar no palco e apresentar um espetáculo de fato. Senão, vejamos o que Beyoncé tem a dizer quanto à sua persona Sasha Fierce: “Eu criei um alter ego; coisas que eu faço numa performance que eu nunca faria normalmente”.

Deixando de lado todas as teorias conspiratórias a esse respeito, acredito que essa pode ser uma referência interessante para músicos de outros gêneros, principalmente os de folk, trova e cantautores em geral (dentre os quais me incluo até certo ponto). A fim de preservar uma discutível “autenticidade”, não é nenhuma surpresa que muitos shows destes gêneros sejam considerados entediantes, ou, na melhor das hipóteses, previsíveis.

É óbvio que esse tipo de atitude não precisa ser levada a extremos (ninguém espera que o Chico Buarque vá levantar os braços e agitar o público como se fosse a Ivete Sangalo). É só uma questão de perceber que, a partir do momento em que está num palco, um músico se encontra numa dimensão diferente e, com ou sem um alter ego explícito, tem à sua disposição atitudes que podem tornar a experiência muito mais interessante para o público.

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2 comentários sobre “Performance e identidade

    1. Ótima analogia. E depende muito também do gênero e do momento de cada artista. O Bono, por exemplo, hoje está mais “nu” do que nunca, enquanto que na época da turnê Zoo TV ele literalmente vestiu várias roupas. Quanto à sua preferência, Cris, nem precisava dizer 🙂 Abração!

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