A língua na música

Outro dia estava assistindo a um vídeo de Luiza Rezende, no seu canal no YouTube, em que ela fazia a seguinte pergunta: qual é a língua mais bela do mundo? Respondi citando, por ordem de preferência, o francês e o inglês, com a justificativa de que soam muito bem em música. Luiza então observou que se a música é boa, qualquer língua soa bem. De um modo geral concordo, mas não pude deixar de notar como alguns estilos soam melhor em certas línguas (como, por exemplo, o inglês e o heavy metal).

Na verdade, depois percebi, a minha escolha pelo francês e o inglês como sendo mais “musicais” tem mais a ver com um detalhe: a relação entre as palavras paroxítonas (quando a tônica é na penúltima sílaba) e as oxítonas (em que a ênfase é na última sílaba). Diferentemente do português, no inglês boa parte das palavras podem ser classificadas como oxítonas; já no francês, absolutamente todas as palavras se tornam oxítonas (inclusive nomes próprios de outras línguas. Ronaldo, por exemplo, vira Ronaldô).

Já o português tem uma proporção bem diferente entre os dois tipos de palavras. Para quem faz música cantada na nossa língua, isso pode trazer algumas complicações. A maior delas – e isso é algo que qualquer um que já tentou colocar letra numa melodia preexistente já experimentou – é a tentação de usar verbos no infinitivo com uma frequência avassaladora, principalmente se os versos forem curtos. Até como forma de evitar essa prática, muitas vezes um compositor escolhe termos e expressões menos convencionais, que podem causar estranhamento.

Tomemos, por exemplo, o caso de Djavan. Muitas de suas letras são criticadas, em parte por parecerem sem nexo à primeira vista. Pra mim o que ocorre é que várias delas seriam muito mais fáceis de ser escritas se fossem cantadas em inglês, pelas características já mencionadas. O exemplo clássico, da música “Açaí” (dos versos: “Açaí/Guardiã/Zum de besouro/Um imã/Branca é a tez da manhã”), é, acima de tudo, o de um compositor que está assumindo riscos. Se é do gosto de quem ouve, isso é algo secundário. Mas, como Djavan mesmo já explicou, não se trata de uma letra sem lógica nenhuma.

Antes de terminar, um exemplo inverso: a música “Billy 1”, que Bob Dylan compôs como parte da trilha sonora do filme Pat Garrett & Billy the Kid. Os três primeiros versos de cada estrofe terminam pedindo por uma paroxítona. Para alcançar esse efeito, Dylan não tem vergonha nenhuma de usar rimas pobres, repetir palavras e colocar até mesmo expressões em espanhol como hacienda e señorita. É o tipo de letra que muita gente, se a conhecesse, faria cara feia.

Espero que não pareça que estou defendendo um artista e criticando outro, até porque não conheço tanto assim de Djavan, enquanto que Dylan é uma das minhas principais referências em mais de um sentido. O caso aqui é o de simplesmente lembrar que música é arte, e, como tal, merece ser captada com os dois hemisférios do cérebro.

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