O que diferencia um artista

Foi notória a polêmica que se gerou, no início deste ano, com a vitória de Beck na principal categoria do Grammy (Álbum do Ano) por seu disco Morning Phase, derrotando a favorita Beyoncé com seu disco epônimo. Kanye West (sempre ele), aparentemente bastante contrariado, disse que Beck deveria dar seu prêmio a Beyoncé por respeito à “artistry” – palavra que neste caso podemos traduzir como “qualidade artística”.

Passada a minha surpresa por constatar que o Grammy ainda fosse capaz de causar tamanha comoção, o ponto que mais me prendeu a atenção nessa história toda foi justamente considerar o que, afinal, Kanye entende como sendo “artistry”. Chris Robley, num ótimo texto para o blog DIY Musician, levantou essa discussão trazendo à tona o argumento de muitas pessoas nas redes sociais que discordavam de Kanye: enquanto Beck compôs, produziu e tocou boa parte dos instrumentos em seu álbum, Beyoncé teria feito não mais que cantar e dividir os créditos das composições com diversos outros parceiros. Consequentemente, isso faria do disco de Beck um representante muito mais digno dessa tal de “artistry”.

A partir daí, a questão que Chris propõe é a seguinte: o que faz do artista um artista afinal? Será que o simples fato de um músico fazer quase tudo sozinho faz dele mais “artista” do que um outro que trabalhe de forma bem mais colaborativa? Essas são questões pertinentes, e como a minha opinião hoje é basicamente a mesma de nove meses atrás (quando pude participar da discussão no já mencionado blog), vou reiterá-la aqui: a meu ver, o que devemos considerar principalmente é a visão artística por trás de uma obra, ou seja, até que ponto ela vem da perspectiva do artista que recebe os créditos (independente do quanto ele pôs “a mão na massa” em termos de execução).

É claro que, quanto mais um artista participa do processo criativo, maiores são as chances de que o produto final esteja de acordo com o que ele deseja expressar – o que, aliás, só vai ficando claro mesmo durante o processo de criação. É por isso que, para quem acompanha a indústria da música com mais atenção, é praticamente impossível dissociar muitos dos maiores sucessos das últimas décadas dos seus respectivos produtores (e por vezes também compositores), mesmo que eles não sejam tão celebrados quanto os músicos principais. Exemplos disso são Berry Gordy e o som da Motown; Max Martin e o pop dos anos 90; e Phil Spector com seu “wall of sound” nos anos 60.

Esse é, também, provavelmente o maior motivo de desconfiança em relação ao que se denomina como “música pop”, pois muitos artistas deste gênero se diferenciam pouco uns dos outros não só em termos musicais, mas também em termos de propósito e valores. Se formos parar para analisar, um cantor como Frank Sinatra é até hoje reverenciado como um dos grandes do século XX, sendo que, até onde sei, ele tampouco compunha, produzia, tocava instrumentos ou fazia os arranjos das músicas que interpretava. No entanto, uma coisa que ele tinha bem clara era o conceito por trás de cada um de seus discos, como as canções deviam dialogar umas com as outras, e como deveria ser todo o processo de gravação. Em outras palavras, ele tinha a visão artística sobre todo o processo.

Por fim, é importante lembrar que é bastante comum que esse tipo de avaliação mude com o tempo, normalmente porque o próprio músico costumar ganhar cada vez mais autonomia em suas decisões (como se pôde ver claramente na trajetória dos Beatles). Além disso, casos como o da dupla Milli Vanilli (que caíram em desgraça com a revelação de que não cantavam as próprias músicas) seriam, como um dos seus ex-integrantes observou, bem menos chocantes nesses dias em que o auto-tune impera nos estúdios de gravação. Resta saber se essas mudanças tecnológicas serão o suficiente para nos fazer reconsiderar o que é “artistry”.

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