Quando a música é boa…

O debate sobre o que faz uma música ser boa ou não parece nunca ter fim. Muitas pessoas (talvez a maioria) acreditam que a música deva despertar emoções; outras, que uma boa música é aquela que é tecnicamente bem executada a nível instrumental; para outros, ela deve ser bem elaborada em termos de arranjos e harmonia. Há também aqueles que se valem deliberadamente de critérios morais (se a música não tem palavrão, por exemplo), ou de algum conceito artístico bem definido (atrelado ou não ao que se julga ser “belo”).

Todas essas ideias têm o seu valor, mas, ao mesmo tempo, pra cada uma não seria difícil encontrar exemplos contrários não só no gosto popular, mas também na avaliação da crítica especializada. Isso pra não entrar nos aspectos sociais de distinção de classe, gênero, faixa etária etc., que predispõem um indivíduo a admirar ou rejeitar determinado artista antes mesmo de ouvi-lo (uma ótima referência para isso é o estudo de 2012 de Rafael Rodrigues da Silva com estudantes de ensino médio em Porto Alegre).

Anos atrás, porém, Zeca Camargo trouxe uma resposta bem interessante a essa questão no programa de TV Altas Horas: “música boa é aquela que te faz ter vontade de ouvir de novo”. Essa simples definição me agrada particularmente por constatar o óbvio: o ato de ouvir música é, e sempre será, uma experiência subjetiva. Não a subjetividade absoluta que defende a possibilidade de qualquer interpretação e nega variáveis históricas, sociais e culturais (exemplificada pela inevitável frase “gosto, cada um tem o seu”). Mas sim a subjetividade de entender que cada vez mais coexistem critérios diferentes para se avaliar uma experiência musical.

Considerar essas questões nos ajuda a aceitar que diferentes pessoas se baseiam em diferentes perspectivas, e não são obrigadas a gostar de uma música mesmo quando reconhecem o seu valor de acordo com outros critérios. Além disso, uma pessoa que fizer tal exercício de autoinvestigação acabará entendendo muito melhor o tipo de relação que tem com a arte em geral.

No meu caso, por exemplo, é provável que muitas músicas de que eu goste (e que outros teriam dificuldade de avaliar como “boas”) revelem o meu viés mais emocional como ouvinte. Eu poderia passar mais uns bons parágrafos explicando isso, mas é suficiente dizer que, ao mesmo tempo em que uma performance tecnicamente perfeita não me diz muito por si só, a rouquidão de Neil Young em “Mellow My Mind” não só não me incomoda, como me faz admirá-lo ainda mais como artista.

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