Passando uma mensagem

Dizer que um trabalho artístico está passando uma mensagem é quase uma ofensa pra muita gente do meio. Mas se formos partir de algumas pressupostos básicos talvez as coisas não precisem ser assim. Principalmente porque passar uma mensagem não quer dizer que uma obra foi feita necessariamente com esse fim. Trata-se do simples reconhecimento do que quer que se faça (ou se deixe de fazer) como uma maneira de se comunicar e expressar valores e prioridades.

Ainda assim, muitos vão argumentar que isso seria contrário à ideia da “arte pela arte”. E talvez seja mesmo. Mas é importante observar o contexto histórico em que esse conceito ganhou força, no caso, a segunda metade do século XIX. Naquela época imperavam doutrinas que buscavam dar à arte um caráter meramente instrumental. Se pensarmos nisso, a frase “arte pela arte” é de fato um libelo antiutilitarista, como fica evidente na famosa afirmação de Oscar Wilde de que “toda arte é inútil”.

O fato é que o ser humano não faz absolutamente nada num vácuo de crenças e ideias, e é óbvio que a arte não está imune a isso. No caso específico da “arte pela arte”, frequentemente o que ocorre é o realce da importância da beleza como um valor supremo. Querendo ou não, isso é também uma maneira de se posicionar e “passar uma mensagem”.

Assim, o que deve ficar claro é que nem sempre essa mensagem vai ter um cunho didático e pedagógico. Por vezes um artista pode querer dizer (conscientemente ou não) algo tão simples como lembrar que sentimentos mais sombrios também podem (e devem) ter vez a nível consciente. Ou então lembrar os demais a respeito da brevidade da vida humana. Qualquer que seja o caso, seria precipitado considerar mesmo os trabalhos de arte mais desafiantes à interpretação como sendo completamente autossuficientes.

Visto isso, o desafio por parte do artista é o de estar, no momento da criação, completamente desapegado de expectativas de lucro e reconhecimento externo. Uma vez “terminada” a obra, porém, trata-se de buscar alcançar aquelas pessoas que possam de alguma maneira estar em ressonância com o que está sendo dito. Acredito que é perfeitamente possível, embora nem sempre fácil, conciliar essas duas mentalidades (afinal, elas ocorrem em dois momentos distintos). A criação pode até existir por si só, mas o artista existe mesmo quando num constante diálogo com o que ocorre ao seu redor.

Anúncios