Poesia x autoajuda

Há alguns anos, pesquisadores da Universidade de Liverpool realizaram um estudo que consistia na leitura, por parte de voluntários, de textos clássicos de literatura. Na época, as conclusões levantadas pelos acadêmicos levaram-nos a defender os benefícios da poesia em detrimento da autoajuda. Nas palavras de Philip Davis, um dos envolvidos no estudo: “esse é o argumento a favor da linguagem séria em literatura séria para situações humanas sérias, ao invés de livros de autoajuda ou leituras fáceis que meramente reforçam opiniões previsíveis e autoimagens convencionais”.

Diante de tanta seriedade, me sinto impelido a detalhar melhor o experimento em questão: primeiramente, os cérebros dos voluntários eram monitorados enquanto os mesmos liam autores como Shakespeare e T.S. Eliot. Em seguida, eles leram basicamente os mesmos textos, mas reescritos numa linguagem mais direta e moderna. Na leitura dos textos originais, observou-se uma atividade mais acentuada – principalmente quando se tratava de poesia – não só do hemisfério esquerdo do cérebro, relacionado à linguagem, mas também do hemisfério direito, relacionado a emoções e memórias autobiográficas.

Não entendo de neurociência o suficiente pra poder entrar no mérito de até que ponto a atividade cerebral nessas áreas signifique, necessariamente, uma maior resiliência e capacidade para a resolução de conflitos (afinal, é disso que estamos falando, não é?). O que me interessa mesmo é considerar a coexistência das duas coisas – poesia e autoajuda –, por se tratarem de áreas muitas vezes complementares.

É claro que não só a poesia, mas a arte em geral, nos leva a lugares aonde dificilmente chegaríamos de outras formas. É aí que reside a sua força, e qualquer um que tenha uma relação íntima com um trabalho artístico sabe disso de forma intuitiva. A questão é menos essa, e mais a seguinte: será que é preciso escolher? É preciso criar uma dicotomia onde não deveria existir nenhuma? Afinal, sabe-se que a mente consciente é uma boa forma de chegar à mente inconsciente, não?

Isso me lembra um pouco a polêmica relação entre ciência e espiritualidade. Se por um lado é justo que se critique a religião quando ela se coloca como explicadora de fenômenos naturais, isso não faz com que ela perca a possibilidade de ter um papel predominante nos desafios da vida de um indivíduo. Joseph Campbell coloca em O Herói de Mil Faces que “jamais há dificuldades em demonstrar que a mitologia, tomada como história ou ciência, é um absurdo.” E, no entanto, esses mitos antigos ainda têm uma forte conexão, não necessariamente com o sentido da vida, mas, como o próprio Campbell diz em outra oportunidade, com a “experiência de estar vivo”.

Espero não estar fugindo muito do assunto do texto, mas gostaria de fazer uma última consideração: mesmo alguém que acredite que “só a arte salva” há de reconhecer que uma compreensão de diversos aspectos de uma obra (históricos, filosóficos, psicológicos etc.) muitas vezes é que dá um “colorido” a mais ao que se vê. Usando um exemplo próprio, talvez o impacto de ter assistido a um filme como Revólver, de Guy Ritchie, não teria sido tão grande se eu não tivesse antes lido um livro como A Sabedoria do Eneagrama, de Riso e Hudson. O fato é que um entendimento racional e consciente de algo (incluindo a arte) não só não impede a sua apreciação, como de fato frequentemente realça o conceito por trás da sua concepção.

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