Sofrimento e criatividade

São tantos os exemplos de artistas que acabaram seus dias de forma trágica, que pra muitas pessoas é de se esperar que o sofrimento seja uma espécie de pré-requisito para o processo criativo. Essa lógica subentende que sofrer é que faz com que um artista seja “profundo”, “autêntico” e outros adjetivos igualmente merecedores de aspas.

Reconheço que pra mim um dos aspectos mais sedutores da música é justamente o de servir de licença para a expressão de certos sentimentos que na maioria das situações seriam tidos, na melhor das hipóteses, como inapropriados. Mas não acho que o criador necessariamente deva sofrer mais do que outras pessoas por isso.

Também não vou negar que o meu próprio sofrimento tenha servido de inspiração pra muitas das coisas que escrevi. No entanto, não posso deixar de reconhecer o perigo que é buscar deliberadamente a dor como forma de legitimar todo o processo de composição. Buscar ter experiências é uma coisa, mas buscar sofrer é outra completamente diferente.

Além disso, um artista que vê o sofrimento como algo necessário para o processo criativo e consegue o sucesso que deseja costuma ter imensas dificuldades de sair dessa armadilha. Afinal, se foi assim que ele chegou aonde chegou, seria arriscado demais buscar um caminho diferente. Isso ajuda a explicar, ao menos em parte, os inúmeros casos, principalmente no rock, de mortes por suicídio, overdose etc.

Quando leio ou ouço sobre a vida de muitos desses músicos fica bastante óbvio que o sofrimento deles estaria ali de uma maneira ou de outra, com ou sem a arte. Por outro lado, não consigo deixar de pensar que poucas coisas lhes fizeram tão mal quanto o sucesso (geralmente repentino), e a consequente companhia de pessoas que não tinham nenhum interesse em fazê-los encarar essas situações de frente.

O fato é que esse tipo de apego é um dos principais fatores (se não for o principal) que leva à cristalização de uma certa autoimagem, a do “gênio torturado”, e a processos de identificação bastante sutis. A parte mais frustrante de tudo isso é que no caminho se perde o que há de mais precioso, que é justamente a oportunidade de incorporar diferentes habilidades, e aprender diferentes formas de lidar com velhas situações. Como se diz, quando só o que se tem é um martelo tudo vira prego.

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