Sobre a música: “Sonhar e Compartir”

“Sonhar e Compartir” é uma música na qual, olhando em retrospectiva, posso observar uma forte influência de dois cantores que admiro muito: Raul Seixas e George Harrison. Um pouco por causa do sentimento de débito que me vem dessa constatação, pretendo aqui contextualizar o que me motivou a escrever a canção.

Pra começar, minha história com Raul é antiga, ainda da época da escola. Uma de minhas músicas favoritas do seu repertório (e são várias!) era “Gita”, que, como já é bem documentado, foi feita baseada no texto sagrado hindu Bhagavad-Gita. A ambiguidade da letra, no entanto, fez com que muita gente cantasse (e cante) a música pensando numa pessoa em específico, o que obviamente foi algo deliberado por parte de Raul e de Paulo Coelho.

Quando soube disso, a ideia de compor uma música que tivesse esse tipo de abertura ficou um bom tempo na minha cabeça. Naquela época, porém, nem cheguei a tentar colocar isso em prática, pois quando enxerguei essa possibilidade me encontrava numa fase de desencantamento cada vez maior a respeito das religiões em geral, e cantar algo assim me pareceria, no mínimo, estranho.

Porém, como já mencionei em outras oportunidades, os anos se passaram, deixei de fazer música por um bom tempo e, quando voltei a fazê-lo, já estava imerso nesse universo de espiritualidade e de desenvolvimento pessoal. Esse meu forte interesse se manifestou principalmente através de livros, filmes e, como não podia deixar de ser, músicas.

Por conta disso, comecei a explorar a carreira solo de George Harrison a fundo. Tendo George se convertido ao hinduísmo, várias músicas suas podem ser entendidas tanto como canções românticas quanto de louvor a uma divindade, podendo-se destacar “Long Long Long” (ainda da época dos Beatles), “What Is Life” e a inacreditavelmente pouco conhecida “Learning How to Love You”.

Inclusive vale destacar uma frase sua (tirada da biografia Here Comes the Sun), ao ser indagado por um repórter a respeito da dificuldade que era saber, a julgar pelas letras das suas canções, para quem ele cantava afinal, se para Krishna ou para uma mulher. George se mostrou contente com essa confusão, dizendo que “cantar para Deus ou para um indivíduo é, de certa forma, o mesmo”.

E essa é uma filosofia que vem me acompanhando desde então, pois poder canalizar o meu interesse por autodesenvolvimento na vivência musical é algo que me traz um senso de propósito cada vez mais renovado. Não tenho uma relação com a espiritualidade tão clara quanto George tinha, mas não acho que isso me tire a possibilidade de explorar esse lado, e – tentando não esbarrar no moralismo – compartilhar descobertas e redescobertas que digam respeito não só a mim, como também a todas as pessoas que estão nessa mesma busca.

Anúncios