“Geramos empregos”

Há algumas semanas falei das minhas ressalvas quanto à frase “O mercado precisa de você”, muito utilizada por empreendedores em defesa do que fazem. Seguindo nessa mesma toada, hoje pretendo comentar sobre a frase-título deste post, que me parece ter um caráter ainda mais predominante e axiomático.

Antes de partir para o meu primeiro ponto, porém, acho que vale a pena enfatizar algo: quando uso o exemplo do argumento de geração de empregos, também penso em outras expressões de sentido similar, como “movimenta a economia”, “contribui com impostos” etc.

Além disso, é bom que uma coisa fique clara: a razão de ser número um de um negócio é o de gerar valor para a sociedade. Obviamente que não sou o primeiro a dizer isso, mas colocar a questão dessa maneira ajuda na compreensão de que, se um empreendimento realmente traz algum impacto transformador, isso já é mais do que o suficiente para justificar a sua existência.

E é óbvio, também, que isso nem de longe se aplica a todos os casos. Tal constatação serve como deixa pra minha primeira ressalva: sim, é verdade que os empreendedores costumam gerar empregos, mas isso as touradas também fazem, e ninguém em sã consciência as defenderia dessa maneira.

Pra trazer um exemplo mais próximo da nossa realidade, o mesmo vale para a indústria tabagista. É possível fazer os mais incríveis malabarismos de retórica pra defendê-la (o filme Obrigado por Fumar me vem à mente agora), mas isso não é suficiente para mudar a percepção social das prováveis consequências indesejáveis do uso contínuo do cigarro.

A minha segunda ressalva é talvez um pouco mais sutil, mas não menos pertinente. Volta e meia, quando um empreendedor conta sobre a sua trajetória, é comum que sua narração esteja impregnada de um sentimento de orgulho – bastante justificado, diga-se de passagem – de nunca ter tido um emprego. O problema é que em muitos casos a ânsia de se diferenciar acaba resvalando num sentimento de desprezo por quem opta pelo caminho mais “convencional”.

Que fique claro: admiro aqueles que enxergam a possibilidade de ter emprego, mas cuja veia empreendedora fala mais alto e dizem de forma clara para si mesmos: isso não é pra mim. O que não admiro tanto é quando se vê o empreendedorismo como mais uma forma de olhar com desdém para outras pessoas. Além disso, não é contraditório desprezar a ideia de ter um emprego e ao mesmo tempo oferecê-lo a outros?

Talvez eu diga tudo isso porque, embora acredite muito no empreendedorismo como a salvação para a indústria da música, não sou necessariamente um proponente da ideia de que ele é a solução para todos os problemas da humanidade. Mas, de um jeito ou de outro, essa já é uma outra discussão. Acredito ser perfeitamente possível achar que ter um emprego não é pra você, mas reconhecer que outras pessoas se sentiriam realizadas dessa maneira.

Essa percepção possibilita inclusive o entendimento de que ter um negócio é uma ótima oportunidade para que essas outras pessoas realizem seus respectivos propósitos na vida. Até porque alguns são empreendedores por vocação, enquanto que outros (como muitos músicos de hoje) o são por questões mais circunstanciais do que qualquer outra coisa. E é esse último grupo que tende a crescer cada vez mais daqui por diante.

Anúncios