Imaginação e experiência

Num vídeo gravado para o YouTube, Paulo Coelho disse algo muito interessante a respeito do processo criativo. Segundo ele, existem basicamente dois tipos de escritores: aqueles como Proust e Joyce, que escrevem principalmente confiando na imaginação em detrimento da experiência; e aqueles como Rimbaud e Hemingway, que sentem a necessidade de ter experiências para criar.

O próprio Paulo, como ele mesmo diz, se encaixa melhor nesse segundo grupo. Isso fica bastante óbvio pra quem conhece um pouco da sua biografia e já leu livros como O Alquimista e O Diário de um Mago buscando paralelos com a vida do escritor.

Tendo isso em mente, imaginei como seria olhar dessa maneira para cantores-compositores. De cara, me parece que na música popular é quase uma norma implícita, tanto por parte do público quanto da imprensa, esperar que o artista escreva a partir da sua própria experiência. Me atentando a cantores que conheço um pouco melhor, posso citar Gene Clark e Cat Stevens como dois ótimos exemplos.

Mas também existem aqueles que fazem todo um exercício de se colocar no lugar de outras pessoas, e sentem um prazer imenso em criar histórias e mundos imaginários. Chico Buarque poderia ser um bom exemplo disso, mas até que ponto os versos de uma música como “Futuros Amantes” são pura imaginação, isso é algo que só ele mesmo (talvez) poderia responder.

Olhando em retrospectiva para a minha própria trajetória até aqui, percebi que essa aparente dicotomia foi um dos principais motivos para o que entendia como a falta de relevância das minhas primeiras músicas. Frequentemente eu falava de coisas sobre as quais não me via com tanta autoridade assim, já que no fundo sentia que precisava de mais vivência (daí o porquê daqueles cinco anos sem compor, como explico no e-mail de introdução da newsletter).

Isso não quer dizer, obviamente, que tudo o que escrevo se refere a coisas que vivi, e também não acho que esse seja o caso dos músicos que menciono acima. Talvez seja mais apropriado dizer que tudo o que me toca, e que de alguma forma está em ressonância com a minha experiência, acaba merecendo um espaço nas minhas composições (ainda que essa conexão possa parecer por demais elusiva pra qualquer outra pessoa).

Entendendo dessa forma, embora ainda ache o exemplo de Paulo Coelho muito válido, de um jeito ou de outro não há oposição entre vivência e imaginação, pois tudo acaba fazendo parte da visão de mundo de cada artista. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do que Leonard Cohen disse numa entrevista recente: “tudo o que eu tenho que colocar numa canção é a minha própria experiência”.

Anúncios