O mercado precisa de você?

Há algum tempo que vem me chamando a atenção a expressão “o mercado precisa de você”, repetida como um mantra principalmente por geradores de emprego e empreendedores em geral. Embora entenda que a intenção por trás de tal frase seja a mais nobre possível – encorajar as pessoas a contribuírem com o que têm de melhor para a sociedade –, a verdade é que ela também me incomoda um pouco, em parte porque nunca me senti inteiramente contemplado por esse tipo de discurso.

Talvez se o meu trabalho fosse de natureza mais mensurável eu tivesse mais facilidade pra me convencer a respeito dessas coisas. Mas mesmo se eu fosse um excelente engenheiro ou médico, será que o mercado precisaria de mim? Sinceramente, tenho minhas dúvidas.

Mesmo quando faço algo de valor para alguém (baseando-me nos benefícios que a própria pessoa diz receber), a minha impressão quase sempre é a de que se não fosse eu seria outro. Da mesma forma que uma pessoa disposta a amar (ou odiar) vai sempre encontrar alguém para direcionar esse sentimento, e não vai parar até encontrar quem possa demonstrar a reciprocidade que ela tanto deseja.

Por outro lado, reconheço que pelo menos até certo ponto é possível criar uma demanda por um serviço. Um exemplo do que vem acontecendo comigo: embora esteja longe de ser um cinéfilo, esse ano tenho ido ao cinema com uma frequência maior do que antes. O motivo? Foi reaberto na cidade em que moro, Niterói, o Centro de Artes UFF, com preços bem mais acessíveis que a média da região (chegando a R$4,00 nas segundas).

Sem dúvida que sou grato a todos os que se empenharam na reformulação desse espaço, por proporcionar um cinema perto de casa com ingressos mais baratos, e uma programação que não segue apenas o dito circuito dos “blockbusters”. Ainda assim, sei muito bem que sou uma exceção a essa regra. A maioria das pessoas realmente interessadas em ver esses filmes faria isso de uma maneira ou de outra, nem que fosse baixando pela internet.

Mas mesmo pra mim com certeza isso já é algo fantástico, e é mais do que o suficiente pra me levar a considerar (com muita admiração) o sentimento de realização dos que estão diretamente envolvidos com esse trabalho. Mesmo que o mercado não “precise” deles, é bem provável que a visão que eles tiveram inspire, de uma maneira ou de outra, muitas outras realizações daqui pra frente.

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