O outro lado

Há quem diga que estar numa banda é como estar num casamento, já que a longa convivência entre pessoas de temperamentos distintos alimenta um desgaste quase que inevitável. Nos dois casos, não é incomum que isso leve a separações bem amargas, ou a um relacionamento mais distante e pragmático, girando em torno quase que exclusivamente de algum objetivo em comum.

Nunca fiz parte de uma banda nem fui casado, mas todas essas questões surgiram pra mim ao assistir o documentário From the Sky Down, que é ao mesmo tempo uma retrospectiva dos primeiros quinze anos do U2 e um vislumbre do processo de criação do clássico álbum Achtung Baby, de 1991.

Além de dar uma vontade danada de ouvir o disco de novo, o filme relata um pouco da tensão entre os integrantes do grupo naquela época. Embora, ao que tudo indica, sempre tenha existido muito respeito e amor entre os quatro, o fato é que eles estavam então em sintonias bem diferentes. E o ponto da virada foi justamente a composição da eterna “One”, o que ajudou a fazer com que as coisas fluíssem melhor.

De qualquer forma, é de se imaginar como uma banda consegue ficar tanto tempo junta (no caso deles, já se vão quase 40 anos!), com os mesmos quatro caras desde o início. Certamente não é (apenas) pelo dinheiro, fama, ou a simples inércia de “não mexer em time que está ganhando” (uma máxima que nunca valeu pro U2). Lá pelas tantas, um comentário do grande Brian Eno (um dos produtores do disco) dá uma pista em relação a isso:

Eles são muito, muito leais uns aos outros, e muito gentis uns com os outros. Não é bom ter alguém na união que não esteja bem, ou que não esteja feliz. Os outros não dizem: “azar o seu cara, a gente vai seguir em frente”. Os outros dizem: “ok, temos que ajudar essa pessoa a estar feliz de novo, temos que trazê-la de volta pro círculo.”

Nada muito complicado, não é? Mas de fato, a capacidade de olhar para o outro lado com empatia parece que tende a se perder cada vez mais após um certo tempo de convívio. Se conseguirmos lembrar que empatia é simplesmente se colocar no lugar do outro, é possível perceber que em alguns momentos isso pode significar simplesmente estar lá para ouvir. Outras vezes, porém, isso pode se traduzir no que em inglês chamam de “tough love” (“amor duro”, numa tradução ao pé da letra). Em todo caso, parece que os membros do U2  instintivamente sabem bem dosar essas duas coisas.

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