Uma lição do pôquer

Semana passada falei mais detalhadamente sobre uma das coisas que mais me estimulava quando jogava pôquer, que era a oportunidade de desenvolver melhor habilidades que me serviriam igualmente em mesas de apostas ou em situações mais corriqueiras. Na ocasião, citei algumas dessas habilidades específicas, e gostaria de focar hoje em apenas uma delas: o controle emocional.

Esse é um princípio que me veio gradualmente de diferentes formas, mas o momento em que me pareceu mais claro foi quando li um texto do jogador e teórico do pôquer Mike Caro (ele próprio também sempre interessado em buscar interseções entre o jogo e a vida). Nele, Caro recomendava uma atitude que é de enorme valor quando se está numa situação tida como frustrante: não piorar as coisas. Isso é algo bem simples, mas que não deixa de ser um tremendo desafio quando você se sente tentado a agredir o primeiro objeto que vê pela frente depois de perder um grande pote (e quem joga pôquer conhece muito bem essa sensação).

Quase sempre é mais fácil manter a compostura jogando numa mesa de verdade, já que ninguém quer demonstrar fragilidade quando está cara a cara com seus oponentes (embora muitos o façam). Essa é uma observação digna de nota porque quem já tentou também jogar pôquer online sozinho num quarto sabe que suas reações emocionais tendem a ser elevadas à enésima potência (o meu armário que o diga).

É claro que existem outras particularidades que têm influência direta nisso, como as diferenças entre jogos com ou sem limites de apostas (estes últimos, bem menos previsíveis), ou as diferenças entre as modalidades, como Texas Hold’em, Omaha ou Razz (essa última, um verdadeiro teste de paciência). Mas se eu fosse entrar nesses detalhes aqui provavelmente te deixaria entediado, além de fugir do foco do texto.

Logo, voltando ao que interessa, o que mais vale a pena discutir é: o que vem a ser exatamente “não piorar as coisas”? Da forma que vejo hoje, se trata de adotar a intenção e a disposição de não perder a perspectiva de médio e longo prazo das suas ações e reações. Se por um lado se deixar levar pela raiva pode te trazer um alívio ou satisfação momentânea, raramente isso vai te ajudar a aprender a lidar com determinada situação de forma consistente.

Por sinal, o simples fato de você se habituar (e por que não dizer viciar) a dar vazão à raiva durante um jogo já te torna bem mais propenso a fazer desse o seu comportamento padrão em outras circunstâncias. E talvez aí esteja uma diferença fundamental entre o pôquer e a vida, já que sentir raiva numa mesa de apostas talvez não te traga consequências necessariamente mais desastrosas, mas certamente elas virão de forma bem mais imediata.

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