A arte de jogar e de viver

No último texto mencionei brevemente o tempo em que estive envolvido com o pôquer. E, mesmo sabendo que isso a princípio possa parecer um caminho bem diferente do que escolhi pra mim hoje, posso dizer que as coisas nunca me ocorreram dessa maneira. Isso porque boa parte do que me atraía no jogo vinha do fato dele poder ser entendido como uma bela metáfora (ou, como dizem, um “microcosmo”) da própria vida.

Pra qualquer um que joga pôquer por algum tempo não é muito difícil encontrar paralelos com situações com que lidamos comumente. Consequentemente, pra além das técnicas, muito da mentalidade de um jogador de bom nível (ou ao menos um jogador persistente) pode ser aplicada no seu cotidiano. No meu caso específico, isso se deu a partir de um interesse crescente em tópicos como linguagem corporal, controle emocional e formação de hábitos, só para ficar nos mais óbvios.

Por isso sempre me surpreendia ver que muitas pessoas que levavam o jogo a sério não necessariamente compartilhavam dessa visão. Uma coisa é ouvir um jogador de pôquer falar dessas semelhanças (e muitos o farão). Outra é poder observar em primeira mão sua atitude geral perante a vida e os demais. Como a minha paixão pelo jogo me levava a gerar expectativas irrealistas, eu me desapontava com frequência nesse sentido. E tudo isso mesmo sabendo racionalmente que eu estava lidando com pessoas como quaisquer outras, com seus conflitos e pontos cegos, e que eu mesmo, afinal, não podia ser considerado um exemplo de nada.

Me lembro que as coisas só começaram a fazer mais sentido pra mim, e pude me reconciliar melhor com essa perspectiva, quando vi uma entrevista do famoso ex-enxadrista russo Garry Kasparov para o Jô Soares. Nela, ele falava com todas as letras que “a habilidade de jogar xadrez não significa mais do que a habilidade de jogar xadrez”, e o importante é o que se pode fazer com isso. Em seguida, ele próprio mencionava o seu interesse em inaugurar sua fundação de xadrez também em São Paulo. Sua premissa básica? O aprendizado desse jogo ajuda as crianças no aprendizado em geral, na medida em que desenvolve autoestima, disciplina etc.

Logo, se existe alguma lição aqui, provavelmente ela pode ser descrita da seguinte maneira: nada do que você aprende numa área da sua vida vai necessariamente te fazer mais inteligente ou sábio em outra. O potencial está ali, mas tudo começa com a intenção de aprender e a disposição para buscar constantemente essas interseções. Acredito sinceramente que muito do que se pode ser chamado de “arte de viver” passa justamente por esse sentimento.

Anúncios

Um comentário sobre “A arte de jogar e de viver

Os comentários estão desativados.