Aute por amor à arte

Talvez soe repetitivo mencionar a falta de abertura do Brasil em relação à música de língua espanhola. Muita gente boa já alertou para o fato de que continuamos, em geral, de olhos e ouvidos fechados para grupos e cantores ibero-americanos, ainda que a internet tenha amenizado um pouco isso. Queria poder dizer que essa situação não me incomoda, mas isso seria não apenas uma mentira, como também um desserviço pra com esses artistas.

Tomemos, por exemplo, o caso do espanhol Luis Eduardo Aute. Fosse ele norte-americano ou britânico, seria, sem nenhum exagero, celebrado tanto quanto Leonard Cohen (de quem, aliás, é admirador confesso). E, como se não bastasse a sua extensa discografia, é também um tremendo artista plástico (basta ver as capas de muitos de seus discos), poeta e diretor de cinema.

É verdade que as suas demais atividades acabam sendo eclipsadas pelo seu trabalho como cantor-compositor. Mas o mais interessante (e o que mais me fascina) é que em tudo se manifesta, em doses complementares e praticamente indistinguíveis, o seu interesse pelo amor, o erotismo e o misticismo. Não posso dizer ao certo quais são as suas visões quanto a esses assuntos, mas sinto que também na sua vida há uma constante busca pela harmonização entre esses “opostos”.

É claro que, ao ler e ver suas entrevistas, passei a admirá-lo também pela pessoa que ele é – o que, como se sabe, só enriquece a experiência artística como um todo. É sempre um prazer vê-lo falar, e perceber um homem verdadeiramente comprometido com a própria arte, que busca acima de tudo contribuir o que tem de melhor sem se preocupar demais com as expectativas dos outros quanto a isso.

Por fim, tenho noção também de que falar de Aute dessa forma pode afastar aqueles que, ao buscarem a música de outros países, dão preferência a se enveredar pela “world music” mais “exótica” (o que, por sinal, também é o meu caso), como as bandas de metais dos Balcãs, ou o tishoumaren do norte da África. Mas, como bem observou David Byrne em um maravilhoso texto para o New York Times em 1999, esse tipo de distinção pode ser bastante perigosa, já que pode nos impedir de abrir os olhos e o coração para algo talvez um pouco mais familiar, mas não menos intrigante e apaixonante.

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