Uma perspectiva do Eneagrama de Riso e Hudson

Quando se faz referência ao Eneagrama, de um modo geral menciona-se o seu uso mais comum, que é (grosso modo) o de um sistema de classificação de tipos de personalidade. E, embora entenda que as suas origens vão muito além disso, é exatamente dessa parte que pretendo tratar aqui. Basicamente, meu objetivo é demonstrar um pouco que, desde que não se encare essa ferramenta como a solução para todas as questões da humanidade, é perfeitamente possível encontrar nela um excelente caminho de autoconhecimento e transformação.

Dito isso, considero importante ressaltar que minhas principais referências são Don Richard Riso e Russ Hudson. Em primeiro lugar, porque, embora não acredite que eles sejam necessariamente melhores do que outros autores, são aqueles com os quais estou mais familiarizado. E também porque, como eles mesmos ressaltam, não existe “o” Eneagrama, mas sim diferentes interpretações a respeito, já que se trata de uma ferramenta não só relativamente recente, mas também bastante dinâmica.

Quando falo em Riso e Hudson, tenho em mente principalmente o livro A Sabedoria do Eneagrama. É deste livro que falo quando menciono no e-mail de boas vindas o impacto que foi ter conhecido esses dois autores. Assim, destaco aqui apenas algumas das lições que considero incrivelmente valiosas, e pelas quais só tenho a agradecer.

Existem diferentes formas de ser egocêntrico

Somos frequentemente condicionados a pensar que ser egocêntrico é meramente agir pensando-se nos próprios interesses, ignorando o que as outras pessoas sentem e pensam. No entanto, como o Eneagrama demonstra, manifestações típicas de humildade e altruísmo, como querer ajudar aos demais, e até mesmo não querer chamar a atenção, também podem ser formas de egocentrismo. Tudo depende muito mais da intenção (consciente ou não) que se coloca por trás de cada ação.

O que serve pra uma pessoa pode não servir pra outra

Isso é algo que é apontado logo no prefácio do livro citado. Um dos grandes desafios nessa jornada de crescimento é que, como diferentes pessoas apresentam diferentes padrões de comportamento, é extremamente delicado querer dar qualquer tipo de recomendação genérica a alguém. De fato, se houvesse uma sequência de diretrizes claras que pudesse ser aplicada por qualquer um em qualquer momento da sua vida, sequer haveria necessidade de diferenciar uma pessoa da outra.

Não existe tipo necessariamente mais compatível com outro

Esse é um ponto que enfatiza a importância de se buscar um desenvolvimento saudável do ego. Para saber se um tipo “combina” com outro, embora ajude conhecer coisas como tipo principal, subtipo, asas etc., o mais importante, de longe, é o grau de maturidade de cada um dos envolvidos. É isso que, a meu ver, melhor caracteriza e diferencia essa ferramenta de outras formas de classificação de personalidade, que tendem a ser mais estáticas. O que me leva ao meu último ponto:

Para onde você vai é tão importante quanto onde você está

Sei que o comentário que vou fazer a seguir talvez seja fruto da minha ignorância, mas não vi em outros sistemas de classificação de personalidade (sejam eles esotéricos ou não), muita coisa para além de uma análise descritiva das características de cada tipo, e uma ou outra recomendação básica. Riso e Hudson, no entanto, mostram claramente que o seu tipo, se encarado mais como um ponto de partida do que qualquer outra coisa, pode te levar a um caminho de crescimento incrivelmente profundo. Isso é conseguido através da análise dos movimentos das flechas, e também dos níveis de desenvolvimento (dando ao Eneagrama a sua “dimensão vertical”, como diz Ken Wilber).

E então?

Não quero deixar esse texto muito mais extenso do que já é, mas pra quem tem interesse não faltam boas fontes na internet tanto em inglês quanto em português, inclusive disponibilizando testes gratuitos. O que mais quero mesmo é ressaltar novamente que, se tivermos em mente que estamos falando de um modelo de entendimento da realidade, podemos aceitar muito melhor as limitações dessa ferramenta, e saber a hora de termos mais autonomia nas nossas decisões. Afinal, como se diz, o mapa não é (nem de longe) o território.

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