Redescobrindo Gene Clark

Sempre me intrigou o fato de Gene Clark nunca ter tido o mesmo reconhecimento de muitos de seus contemporâneos. Talvez porque, ao contrário de outros cantores da sua época que se tornaram ídolos cult (Gram Parsons, Nick Drake, Tim Buckley etc.), Gene morreu cedo, mas não tão cedo assim (tinha 46 anos). Além disso, seu nome e rosto, com algum esforço, podiam ser reconhecidos como um dos membros fundadores dos Byrds.

Talvez tenha sido esse o principal problema. Dos que ouviram falar dele enquanto vivo, a maioria provavelmente o associava com a banda californiana. Como o grupo continuou a fazer sucesso após a sua saída, parece ter havido um consenso entre o público de que ele era um talento menor se comparado a David Crosby ou Roger McGuinn. Um vídeo de uma apresentação sua em conjunto com este último (na qual parte do público grita por Roger quando Gene está sozinho no palco) é dolorosamente revelador dessa tendência.

Isso é mais do que uma pena, porque nada podia estar mais distante da realidade. Do rock psicodélico do seu primeiro disco solo, passando pelo country rock pioneiro do seu trabalho com Doug Dillard, o folk rock do álbum White Light, e o disco No Other, que junta tudo isso e mais um pouco… Gene mostrou de forma categórica que a sua visão ia muito além do que o seu trabalho nos Byrds sugeria. Ainda assim, poucos tiveram a chance de ser tocados por essa diversidade toda.

Felizmente as coisas vêm mudando bastante ultimamente, e o ano passado, como bem apontou o blog Clarkophile (uma das melhores referências sobre ele na internet), foi marcante nessa reviravolta. Pelo menos dois eventos foram dignos de destaque: o documentário The Byrd Who Flew Alone, que entrevistou vários familiares, amigos e parceiros seus; e o show-tributo ao disco No Other (que o próprio Gene considerava a sua obra prima), comandado por integrantes do duo americano Beach House, que reproduziram o álbum na íntegra (e com uma meticulosidade impressionante).

Levando em conta a quantidade de material inédito ainda a ser lançado, é minha expectativa de que esse culto só aumente. Eu mesmo conheci o seu trabalho pela coletânea Flying High (provavelmente a melhor introdução possível), que já incluía uma ou outra faixa inédita. Pra além de tudo isso, pra quem tenha ficado curioso (e eu espero que sim!), não ouso dizer qual é o meu disco ou canção favorita, simplesmente porque não preciso e nem quero escolher. Mas uma recomendação que é (justificadamente) bem manjada, e que raramente falha, é “For a Spanish Guitar”, de seu disco White Light, de 1971. Então…

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