Fingindo raiva

Talvez a raiva seja o mais controverso de todos os sentimentos, já que mesmo entre estudiosos das emoções não parece haver um consenso sobre a melhor forma de lidar com ela. Seria melhor suprimir, dar vazão de forma segura e controlada, ou nenhuma das alternativas anteriores? Bom, o que pretendo explorar aqui é uma perspectiva com a qual tive contato em dois contextos diferentes.

A primeira vez foi num texto do filósofo sufi indiano Inayat Khan, que dizia o seguinte:

Uma vez tendo destruído o Nafs, você nunca achará necessário ficar irritado novamente, embora você possa agir como alguém que está irritado e fingir estar irritado. Então, se é necessário demonstrar raiva isso não significa o fogo do inferno para você como seria para outros, pois você está apenas usando um instrumento, e aquele instrumento não é o seu mestre.

Me parece que não há um único significado para a palavra Nafs, mas ela pode ser entendida como os impulsos ditos mais primitivos do ser humano, assumindo uma conotação negativa no sufismo (não muito diferente de como se costuma falar do ego na nossa sociedade).

Mas isso não é o mais importante no momento. A questão de que Inayat Khan trata é que, tendo-se superado a tendência a se sentir raiva por determinada situação, ainda assim pode ser vantajoso – e talvez até necessário – demonstrar a raiva como a melhor forma de lidar com alguém.

A segunda vez que tive contato com essa abordagem foi durante o último carnaval, quando tive a oportunidade de fazer o curso de meditação Vipassana em Miguel Pereira. Já nos últimos dias de curso foi contada uma história sobre um instrutor de meditação que, a fim de disciplinar um aluno negligente na técnica, gritou com ele e o repreendeu de maneira bastante dura. Voltando para junto dos outros servidores, ele mesmo dizia: “gritei com ele”, com um sorriso e uma atitude descritos como sendo “puro amor”.

Vale a pena repetir: essa abordagem subentende que a pessoa que a aplica não esteja movida de fato pela raiva, e sim por uma leitura mais objetiva da situação, levando a um uso estratégico dessa emoção.

Confesso que essa filosofia me deixa um tanto confuso, muito provavelmente porque eu mesmo ainda tenho muito que aprender com a minha própria raiva. Talvez a explicação mais coerente que eu possa encontrar pra isso é que tão (ou até mais) importante do que o que se faz ou se deixa de fazer é a energia que se coloca por trás de cada palavra e cada ação.

Mas existe outro ponto a se considerar: diferentemente de outras emoções, a raiva não é assim tão fácil de fingir. Mesmo que uma pessoa consiga não se deixar afetar por ela, isso não necessariamente significa que ela conseguirá expressá-la de maneira incisiva e convincente. E, caso isso ocorra, o resultado (como indicam alguns estudos) tende a ser desastroso para quem se arrisca a usar essa tática.

Anúncios