Distress x eustress

Há algumas semanas mencionei a importância de se reconhecer o tempo como o bem mais escasso que temos. Se é verdade que tal reconhecimento decorre, antes de tudo, de uma clareza de propósito, em termos práticos nem sempre é tão fácil de se fazer essa guinada. O sinal mais inequívoco disso é ver como boa parte das nossas decisões não está impregnada de um senso de urgência adequado.

Não é outra a razão pela qual pessoas que passam por experiências quase fatais experimentam, de forma natural, uma completa revisão de valores e prioridades. Essas pessoas sabem (não apenas racionalmente, mas com tudo o que têm) como a vida é extremamente curta e frágil. Para a maioria de nós, no entanto, é preciso que nos demos ao trabalho de deliberadamente adequar estratégias para trazer de algum modo esse senso de urgência ao dia a dia.

É claro que existe o risco disso fazer com que uma pessoa se torture sem maior razão (afinal, ninguém em são consciência quer sentir mais ansiedade). Daí vem a importância de se diferenciar entre o que o endocrinologista Hans Selye chamava de distress (o estresse negativo) e eustress (o estresse positivo). O primeiro termo corresponde ao que é mais comumente chamamos de estresse, ou seja: uma sensação opressora advinda de uma avaliação negativa a respeito de determinada circunstância. No entanto, é perfeitamente possível rever determinado evento ou ação de modo a torná-la um estímulo positivo, o que forma a base para o eustress.

Você pode argumentar que algumas pessoas são mais naturalmente propensas a sentir distress, no que eu concordo em parte. No entanto, acredito que a principal diferença é o quanto determinada atividade está imbuída de significância por quem a realiza. Isso não precisa necessariamente ser um objetivo grandioso. Frequentemente, em coisas aparentemente “menores” é que se consegue a força para se ter foco e disciplina. O importante é que, com isso, o trabalho mais “chato” do mundo tem todo o potencial de ser ao menos gratificante, e algo tido como “impossível” pode se tornar desafiante.

Um exemplo próprio: para escrever esses textos, venho dando a mim mesmo (ao menos por enquanto) o prazo de uma semana. Uma semana para escrever um texto de alguns parágrafos sobre algo relevante para mim não é uma tarefa assim tão absurda. Mas quando me comprometo a fazer isso todas as semanas, sou obrigado a tirar de mim aquele algo a mais que me permite ser mais consistente nesse propósito. Acredito que seja nessas pequenas mudanças de mentalidade que as maiores mudanças ocorrem. Principalmente quando falamos em realizar algo em longo prazo preservando um mínimo de sanidade e equilíbrio emocional.

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