Da força do contexto

Dia desses numa livraria me deparei com o livro Persuasão e Influência, de Robert Cialdini (autor do clássico As Armas da Persuasão), Steve J. Martin e Noah J. Goldstein. Lendo alguns dos seus 52 capítulos me chamou especial atenção o 4º, que mencionava a “teoria das janelas quebradas”. Em linhas gerais, essa teoria, desenvolvida pelos americanos James Wilson e George Kelling, diz que transgressões menores acabam levando a transgressões maiores devido à influência que o meio exerce no comportamento dos indivíduos. Sua fama se deve muito por ter servido de base para, no início dos anos 90, o então prefeito de Nova Iorque Rudolph Giuliani ter posto em prática a controversa política de tolerância zero.

Não quero entrar no mérito do quão eficaz tal política possa ter sido (também sobre isso há controvérsias), até porque seria um grande desperdício ver uma teoria tão interessante reduzida a um mero viés de ação governamental. O que eu gostaria mesmo de frisar é algo que os autores do livro demonstram muito bem: o quanto esse tipo de pressuposto – ou seja, a força do contexto – não só pode como deve ser entendido e praticado em outros âmbitos.

Talvez um dos pensamentos mais desencorajadores que se possa alimentar em longo prazo é a noção de que um indivíduo, por si só, não pode ter influência sobre o todo. Tal ideia se apoia num senso de separação que ignora que, qualquer ato, por mais inusitado que pareça, serve de referência para futuras ações não só de quem as pratique, mas também de quem quer que as observe. E o que se pode depreender disso? Como os autores ressaltam, “o contexto define o comportamento tanto quanto o conteúdo informativo”, o que nos alerta para o fato de que não basta apenas dizer o que se pensa, mas também demonstrá-lo através do exemplo.

Sei que isso pode parecer demasiado individualista, mas não é necessário pensar nesse tipo de abordagem como se fosse uma substituição a políticas governamentais. É óbvio que uma andorinha só não faz verão. O objetivo principal é bem mais simples que isso (embora não menos ambicioso): atingir um estado de congruência, de forma que as nossas demandas externas estejam em consonância com os nossos hábitos. Assim como seria um tanto estranho receber conselhos de emagrecimento de um médico acima do peso, qualquer tipo de crítica social vinda de quem não busca viver o que prega é talvez o mais inequívoco sinal de falta de maturidade – interpessoal ou política.

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